Mulheres na aviação: balé, revistas e mudanças de rota. Conheça as histórias

“Quem é o piloto?

“Sou eu!”

“Você é a filha do piloto?”

“Não. Eu sou a piloto!”





Este foi um diálogo real trocado em um voo da Azul no início da década passada. Para conhecer os nomes por trás dessa e de outras histórias de mulheres na aviação, que tal voltar um pouco no tempo? Neste post especial em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, você vai conhecer alguns nomes femininos que estão por trás das centenas de voos que aportam e decolam pelo mundo diariamente.

Contamos aqui as histórias de duas tripulantes da Azul: a comandante Audrey Savini e a técnica de Manutenção de Aeronaves Indyanara de Fátima Silva. Elas representam não apenas dois exemplos entre trajetórias de sucesso de mulheres na aviação, como também traduzem a própria Azul. Suas carreiras são marcadas por muito estudo, dedicação, talento e competência, sempre colocando as pessoas em primeiro lugar.

É com esse espírito de liderança que se faz uma companhia aérea e é por isso, também, que a Azul se consolida como uma das maiores empresas de aviação com ampla participação feminina em todo o mundo.

Neste post, também contaremos as histórias de outras participações femininas de grande relevância e destaque na aviação. Embarque nesta viagem com a gente e tenha uma boa leitura!





“Eu saía do balé para o curso de piloto”

Enquanto descalçava as sapatilhas e as guardava na mochila, a jovem bailarina Audrey Savini, de 17 anos, se preparava para sair da aula de balé e deslocar-se até outro ponto da cidade, em Campinas (SP), para estudar outro curso: o de piloto. Já em Candaraí (MG), a 570 km de Campinas, a também garota Indyanara de Fátima Silva compartilhava uma paixão em comum com Audrey: os aviões. Apesar de não se conhecerem à época, as meninas trilharam destinos parecidos e hoje são parte do time de mulheres na aviação da Azul Linhas Aéreas Brasileiras. Uma, piloto. A outra, técnica de manutenção de aeronaves. E o que elas têm em comum vai muito além do crachá da companhia.













“Eu não me lembro de pensar em outra coisa”, conta a Comandante Audrey. Mesmo atuando como bailarina profissional na infância e adolescência, a piloto sabia que, assim que tivesse idade, passaria a estudar ciências aeronáuticas e trabalharia com isso – e, claro, as sapatilhas e o tule se tornariam um hobby. O encanto pelos aviões começou com o pai, que chegou a pilotar antes mesmo de ela nascer, e deixou espalhadas pela casa algumas revistas de aviação. Foram essas revistas que a encantaram, informaram e despertaram. Ao longo dos anos, visitar aeroportos com o pai para assistir aos aviões decolarem seria um dos seus programas favoritos de final de semana.

Há 10 anos na Azul, Audrey conta que sua trajetória sempre foi firme e objetiva. Isso não quer dizer que tudo tenha sido favorável. “Perdi as contas de quantas vezes ouvi, desde o colégio, que eu não conseguiria. ‘Ah, mas é difícil… ah, mas é demorado’. Sim, é difícil; sim, é demorado. Mas qualquer coisa é! Se eu perdesse tempo ouvindo isso, não estaria onde estou”, conta.

Para concluir seus estudos, computar suas primeiras horas de voo e se formar piloto, Audrey decidiu ignorar piadinhas e comentários condescendentes. “Eu ria das piadas. Escolhi não ligar para nada que pudesse me tirar do foco”. Foi essa determinação que a levou aos dias mais marcantes da sua história na Azul até hoje. “Nunca vou me esquecer do primeiro voo, que por acaso foi no dia do meu aniversário. E, óbvio, do dia da elevação ao comando. É nesse momento que a gente percebe que conquistou o que tanto queria”.





Recalculando a rota

Às vezes, ter certeza de um sonho pode ser apenas um leve desvio para outro sonho ainda maior. A paixão por aviação, por exemplo, não está limitada a uma função única de pilotar. Existem muitas possibilidades (e muitas responsabilidades) por trás de um voo. Foi assim com a técnica de Manutenção de Aeronaves Indyanara de Fátima Silva. “Minha paixão por aviação começou cedo. Eu morava no interior de Minas Gerais, em Candaraí, perto de uma base militar. Na sétima série, comecei a me interessar pela aeronáutica, cá entre nós, uma área muito atraente mesmo. Queria (ou achava que queria) ser piloto. Por ser mulher, encontrei algumas barreiras, mas isso não me deteve”.













Foi aí que ela encontrou um “caminho alternativo”. Indyanara matriculou-se num curso técnico de manutenção de aeronaves, pelo Programa de Educação Profissional (PEP), em Minas Gerais. Ela acreditava que essa seria sua porta de entrada para uma futura carreira de piloto. O que ela não sabia é que acabaria se apaixonando pela nova área. “Eu me descobri como técnica de manutenção e agora sei que nasci para isso. Não quero fazer outra coisa. Quero avançar na área que já estou, aprender cada vez mais”. E o resultado não poderia ter sido melhor: Indyanara iniciou sua trajetória na Azul como auxiliar, em 2010, e hoje já está no nível III no cargo de técnica de Manutenção de Aeronaves. 

Num artigo que escreveu para o LinkedIn em 2019, Indyanara conta que, por trás de cada decolagem e aterrissagem – o que pode parecer magia para os clientes – existe um trabalho sério, gigantesco e de muita responsabilidade. “Eu me arrisco em dizer que é um misto entre o prazer de fazer o que ama, gratidão, disciplina e dedicação extremas e um bocado de carinho. Sim, carinho. Cada aeronave que é liberada leva consigo sonhos e realizações entre os milhares de clientes que por ali passam e também de quem as opera”.

Disciplina é uma das palavras-chaves para Indyanara, Audrey e todas as mulheres na aviação – em especial na Azul. Quando perguntadas sobre conselhos que dariam para as meninas que querem ingressar na aviação hoje, elas convergem sobre muitos pontos de partida em comum: a dedicação, a aptidão e a competência. 

Primero, é preciso querer muito. E, então, se dedicar. Às vezes será preciso ficar longe de casa e da família. Talvez, será preciso mudar de cidade uma ou mais vezes durante a vida profissional. Isso faz parte de quem escolhe atuar na aviação: seja comandando uma aeronave ou garantindo a segurança e o conforto de quem precisa estar dentro dela.





Elas fariam tudo de novo





“Olhando para trás, eu não faria nada de diferente. Se eu pudesse apenas melhorar minha trajetória em algo, seria usar mais a disciplina que tenho hoje para dar mais visibilidade e priorização aos temas que eu escolhi estudar”, conta Indyanara. “As dificuldades a gente encontra em qualquer caminho que escolher. Mas também há muitas pessoas querendo nos ajudar”. Gratidão à equipe, aliás, majoritariamente formada por homens, é um dos itens que a técnica mais gosta de reforçar. “Ninguém conquista nada sozinha. Minha equipe na Azul me ensina muito todos os dias. Ensino e aprendo com eles também e isso nos fortalece”. 

A sensação de pertencimento também é parte da história de Audrey. Hoje, grávida da primeira filha, Olívia, cuja chegada está prevista para as próximas semanas, a piloto trocou provisoriamente a cabine de comando por funções administrativas na área de Safety e fatores humanos da Azul. “Sempre me senti acolhida e gosto de contribuir com a companhia para sempre descobrir o que podemos fazer pelas pessoas. Isso me motiva e me inspira bastante todos os dias”.





Uma paixão que conecta

As coincidências entre Audrey e Indyanara não param por aí. Quando perguntadas se possuem um favorito entre os modelos de aeronaves, ambas dão a mesma resposta: o ATR 72 – 600, um dos principais aviões da Azul. Esse modelo elas conhecem bem: enquanto uma estuda cada parte do seu maquinário, a outra o leva para os céus. E graças a elas, milhares de pessoas se conectam a suas paixões e seus destinos a cada minuto no Brasil e fora dele.

O ATR 72 está gravado em uma tatuagem no braço de Indyanara – apesar de ter um favorito, a técnica faz questão de deixar as portas abertas. “Adoro conhecer novos equipamentos, descobrir o que vai chegar, ver o futuro acontecer. Mal posso esperar para acompanhar o que há por vir e adoro sempre estar fora da caixa”, comenta.





Mulheres na Azul

Além de Audrey e Indyanara, existem milhares de mulheres entre os tripulantes da Azul. Esta é, aliás, a companhia aérea brasileira com maior presença feminina nas mais diversas funções do setor aeroespacial, em território nacional. O time feminino se divide entre cargos de comissárias de bordo, pilotos, diretoras executivas, mecânicas de aviões, instrutoras de voos e várias possibilidades de ocupações que existem na empresa.

O aumento da presença das mulheres na aviação está transformando esse cenário que, ainda hoje, é predominantemente masculino. Essa mudança de padrão só é possível com a participação de todas as empresas envolvidas no meio aéreo, que podem possibilitar o ingresso feminino em suas companhias, promovendo condições de trabalho adequadas e equânimes.

O potencial de crescimento feminino nesse mercado é grande, e com projetos de incentivo e de despertar do interesse de crianças e jovens, é possível construir uma proporção de ocupação cada vez mais equilibrada na aviação.





Pioneiras no comando

Se hoje a participação das mulheres na aviação se espalha por diferentes funções, vale lembrar que nem sempre foi assim. Toda mudança de paradigma se inicia a partir da ação de grandes seres humanos, que agregam suas próprias histórias de vida a histórias das nações. Na aviação não foi diferente.

Para transformar uma cena em que a população feminina era apenas coadjuvante, algumas mulheres precisaram provar que podiam pilotar uma aeronave.

As primeiras aviadoras da história mundial enfrentaram reprovação, represália, proibições e todo o tipo de comportamento desencorajante em sua trajetória singular. Essas pioneiras da aviação ousaram e conseguiram abrir espaço para que, hoje, muitas mulheres assumam esse legado, e para que as meninas saibam que também podem pilotar e comandar aviões.

Conheça um pouco sobre algumas das personalidades femininas marcantes da história da aviação brasileira e mundial!





Elisa Léontine Deroche

Mais conhecida como Raymonde de Laroche, a piloto e também atriz francesa foi a primeira mulher a receber o brevê da história mundial da aviação, em 1910. Um ano antes, porém, em 1909, já realizava seu primeiro voo sozinha. Sua trajetória foi permeada de recordes e pioneirismo feminino na área de aviação.

Bessie Coleman

Bessie foi a primeira mulher negra a receber a licença de piloto de avião, em 1921. De origem estadunidense, precisou viajar para a França e tomar aulas de voo por lá, pois em seu país não obteve permissão para concluir sua habilitação.

De posse do documento que a qualificava, retornou aos Estados Unidos, onde atuou em shows aéreos demonstrativos por muitos anos, sendo reconhecida por sua grande importância.

Thereza di Marzo

Representando as mulheres do Brasil na aviação, temos Thereza di Marzo como a primeira piloto feminina brasileira a receber sua licença, no ano de 1922. Seu documento foi o de número 76.

Sua atuação, porém, foi curta. Logo após se casar com seu instrutor de voo, Fritz Roesler, encerrou suas atividades como piloto de avião. Isso porque, segundo o marido, bastava um aviador na família. Ainda assim, sua importância ficou para sempre registrada na história.

Anésia Pinheiro Machado

Por um dia de diferença, Anésia não deteve para si o título de primeira mulher piloto de avião brasileira a receber habilitação técnica de pilotagem. Assim como para Thereza, seu brevê foi concedido no ano de 1922.

Contudo, diferente do que aconteceu a Thereza, a relação de Anésia com a aviação durou cerca de 30 anos e contempla muitas realizações importantes. Ela foi a primeira mulher a pilotar uma aeronave com passageiros, além de ser também pioneira em voos internacionais e instrutora em cursos de aviação, em empresas nacionais e americanas.

Amelia Mary Earhart

Foi a primeira mulher a sobrevoar sozinha o Oceano Atlântico, em 1928, e é considerada pioneira em terras americanas. Nascida no estado do Kansas, ficou conhecida por sua irreverência, suas lutas em defesa dos direitos das mulheres e por realizar feitos impensados pela maioria das pessoas da época.

Sua trajetória, no entanto, guarda mistério com relação à sua morte. Após tentar concretizar um voo ao redor do globo, a piloto desapareceu, em 1937, próximo a uma ilha no Oceano Pacífico. A história de Amélia foi eternizada no filme homônimo, da diretora Mira Nair, com atuação da atriz Hilary Swank.

Ada Rogato

Essa é outra fantástica mulher que representa o Brasil na aviação , que obteve seu brevê em 1936. Ada é responsável por inúmeras quebras de padrões, pois foi a primeira a pilotar aviões planadores, foi pioneira no paraquedismo do país e também na aviação agrícola.

Foi também a primeira mulher a receber da Força Aérea Brasileira o título de Piloto Honoris Causa. Ada finalizou sua história de vida, dedicando-se ao Museu da Aeronáutica de São Paulo, onde recebeu homenagens no momento de sua partida, aos 75 anos.

Maureen Adel Chase Dunlop

Piloto argentina, com pais australianos e ingleses, teve a oportunidade de tomar algumas aulas de voo em uma de suas viagens em família para a Inglaterra.

Quando retornou à Argentina terminou sua habilitação e algum tempo depois, com o advento da Segunda Guerra Mundial, teve participação expressiva como piloto de guerra voluntária, nas tropas britânicas. Maureen foi amplamente conhecida após ter seu rosto divulgado na famosa revista da época, Picture Post, em 1942.

Valentina Tereshkova

Se houver dúvidas sobre a existência de mulheres pilotando naves espaciais, Valentina está nessa lista para garantir que esse também é campo para a população feminina.

A cosmonauta russa foi a primeira mulher a realizar um voo para o espaço, em 1963, a bordo da nave Vostok 6. Além dessa realização brilhante em sua trajetória profissional, Valentina também era reconhecida por ser uma paraquedista amadora.

Joana Martins Castilho D’Alessandro

Conhecida como Joaninha, a piloto brasileira entrou para o livro dos recordes como a aviadora acrobata mais jovem do mundo, em 1940, quando tinha apenas 15 anos de idade.

Recebeu sua habilitação para pilotar diretamente das mãos do, então, presidente da república Getúlio Vargas. Depois, completou suas horas de voo para continuar as acrobacias nos ares, pelas quais ficou famosa.

Carla Alexandre Borges

Representando a nova turma de mulheres engajadas na aviação nacional, está a capitão aviadora brasileira, Carla Borges. Integrante das Forças Aéreas, concluiu seu curso para piloto pela entidade pública, em 2003.

É a primeira mulher brasileira a comandar aeronaves caças da FAB, e também é conhecida por pilotar pela primeira vez um avião presidencial, em 2016, transportando o presidente da ocasião, Michel Temer.

Essa lista apresenta algumas das mulheres mais importantes para a história da aviação mundial, porém, não esgota as incontáveis contribuições femininas para o setor. A história de vida de cada uma dessas pilotos encoraja muitas outras profissionais, que buscam cada vez mais oportunidades para se destacar na área.

Segundo a ANAC, foram 2.743 licenças expedidas, no Brasil, para mulheres, nas funções de piloto privado, comercial e de linhas aéreas, em cerca de 70 anos. Esse número corresponde a uma pequena porcentagem de todos os brevês emitidos em território nacional, porém, em comparação com os números de 5 anos atrás — que somavam 2.066 licenças —, os dados subiram mais de 30%.

As boas notícias não param por aí. Em 2021 o Brasil registrou o maior número de licenças para pilotagem. É um recorde na história da aviação do país. Ao todo foram concedidas 200 licenças, feito que, até então, não havia sido registrado pelo órgão regulamentador.

Esperamos que histórias como as da comandante Audrey Savini, da Técnica de Manutenção de Aeronaves Indyanara de Fátima Silva e das centenas de outras mulheres na aviação contribuam para mais aberturas de portas para meninas em todo o planeta.





Gostou deste conteúdo? Compartilhe nas redes sociais.