Mauricio de Sousa fala dos 61 anos da Turma da Mônica

Numa entrevista exclusiva, o paulista Mauricio de Sousa fala dos 61 anos da Turma da Mônica. No bate-papo, junto com seu filho Mauro Sousa, diretor de espetáculos, parques e eventos da companhia, ambos falam da trajetória de sucesso da marca e contam novidades, como uma filial no Japão, a parceria com a Azul e até – quem diria? – uma futura Turma da Mônica adulta

fotos Márcio Bruno e Divulgação





Em 1959, quando publicou sua primeira história em quadrinhos no jornal Folha da Tarde, o paulista Mauricio de Sousa já sabia que essa seria a grande obra da sua vida. Com o sucesso da tirinha, que trazia os personagens Bidu e Franjinha, nascia a Turma da Mônica, uma animada história de sucesso criativo e empresarial. Hoje, mais de 400 personagens depois – vários deles inspirados nos próprios filhos e em amigos de infância, vivida em Mogi das Cruzes –, a Mauricio de Sousa Produções é uma das maiores empresas de conteúdo do País. São mais de 4 mil produtos licenciados, 2,5 milhões de gibis por mês, um estúdio de criação com 400 profissionais, parques infantis, 15 espetáculos musicais ao vivo, projetos sob demanda e até um setor de alimentos naturais, como as famosas maçãs da Turma da Mônica.













Às vésperas de completar 85 anos de idade, em 27 de outubro, Mauricio de Sousa concedeu esta entrevista para a revista Azul por vídeo. Participou da conversa também um de seus nove filhos, Mauro Sousa, 33 anos, diretor de espetáculos, parques e eventos da Maurício de Sousa Ao Vivo – e inspiração para o personagem Nimbus. Com um eterno sorriso e muita assertividade, Mauricio falou da trajetória de seus 61 anos de carreira, de sua (ótima!) relação com as recentes plataformas de comunicação e da nova parceria da Turma da Mônica com a Azul Linhas Aéreas. “Sou suspeito porque adoro azul, é uma cor divina”, disse o sorridente Mauricio, usando uma camisa nesse tom, cercado de personagens azuis, como Bidu e o coelhinho Sansão.





Maurício, quando você publicou sua primeira tirinha imaginava que isso seria a obra da sua vida?

Desde criança, quando aprendi a ler nos gibis, eu queria desenhar, criar personagens, fazer histórias em quadrinhos. Nunca mudei esse foco nem duvidei de que fosse conseguir. Lógico que foi difícil. Houve trombadas, problemas. Mas nunca me desviei desse objetivo. Quando publiquei Bidu e Franjinha no jornal Folha da Tarde, em 1959, foi um momento mágico. Pensei: “virei desenhista de histórias em quadrinhos!” Estava publicado em um grande jornal e daí começou o processo todo.





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Qual foi seu plano?

Eu me preparei bem. Na redação da Folha fiz a minha “pós-graduação” para saber como eu ia negociar para viver disso. Os norte-americanos dominavam as histórias em quadrinhos em jornais do mundo inteiro. Então aprendi como eles faziam marketing, merchandising, divulgação. Eu pedia para os redatores-chefes todo o material que chegava dos Estados Unidos e lia tudo. Assim planejei produzir as tirinhas do jornal e republicá-las. A tira pagava muito pouco. Não adiantava vender uma só. Tinha de republicar. Depois, criei uma associação de classe para os desenhistas, fazendo uma campanha pela nacionalização das histórias em quadrinhos.





Como surgiram outros personagens?

Depois da Folha da Tarde, trabalhei na Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro. Carlos Lacerda queria mudar a imagem do seu jornal, como um veículo nacionalista. Eles me encomendaram uma HQ brasileira. Daí criei o Piteco, um homem pré-histórico. Foi um sucesso. O pessoal da Folha me chamou para ajudar a lançar o suplemento Folhinha de S.Paulo. E as tiras voltaram para o jornal, com Cascão e Cebolinha, entre outros. A Mônica só apareceu depois, na tira do Cebolinha. Ela entrou pelas beiradas, não como protagonista! Mas, com o jeitão dela, roubou a cena e a tira até mudou de nome para Mônica. Até agora o Cebolinha está tentando recuperar isso (risos).





Por que você acha que seus personagens ainda fazem sucesso, 61 anos depois?

Foi trabalho, foi cuidado, foi “dar certo e dar sorte”. Eram personagens fofinhos, com personalidades bem marcantes. Daí a Turma da Mônica pegou. O negócio foi não parar de sair. Eu continuei mostrando a cara e meus personagens. Com isso, continuei vivo na mídia, com uma equipe que foi se aperfeiçoando cada vez mais. De alguma maneira, eu falava com o público sobre assuntos de momento e houve uma evolução das falas, das expressões, dos temas. Eu queria chegar ao público, falar com o leitor. Aliás, faço isso até hoje. Sou eu quem fala com os leitores pelo Instagram. Não é uma equipe, não é a assessoria. Ainda bem que hoje há um monte de plataformas. Eu quero usar todas! São novas maneiras de você falar do seu produto. Quero sentir o pulso dos leitores para ver o que eles querem, do que não gostam, o que estão achando, e assim por diante. E que venham sugestões!













A Turma da Mônica está em mais de 70 países. Já teve de adaptar seus personagens para as culturas locais?

Muito pouco. Eu venho da escola norte-americana de histórias em quadrinhos, assimilei a técnica de narrativa e de produção deles. Nossas histórias não sofrem nenhum problema. A não ser coisas menores. Por exemplo, na Indonésia, um dos maiores países muçulmanos, pediram-me para fazer uma alteração quando a Mônica e a Magali usavam maiô de duas peças na piscina. Não podia! Na mesma hora pintei um maiô inteiriço, e pronto! (risos). Já o Bidu não pode fazer xixi no poste nos Estados Unidos e no Japão. Senão,a editora é multada (risos).





Como surgiu a ideia da Turma da Mônica Jovem?

Foi algo provocado pelo mercado. Estava eu lá tranquilo, vendendo milhões de revistas (risos) e de repente começou a baixar. As crianças que compravam e liam as revistas cresceram e chegaram à adolescência. O tema já não servia mais a eles. Virou coisa de criança. Detectei esse problema e resolvemos, depois de muito estudo, criar a Turma da Mônica Jovem. Foi um sucesso. Vende milhões de revistas, mais do que a Turma infantil. E isso pode acontecer de novo, porque quem está lendo a TDM Jovem está entrando na idade adulta e pode achar aquelas histórias muito joviais. E está pintando um estudo para lançarmos a Turma da Mônica Adulta. Vou ter de reinventar muita coisa. A Mônica vai se casar? Com que idade? Como serão as histórias desses personagens com mais de 25 anos? As tramas serão mais maduras e vão trazer o que estiver acontecendo no mundo naquela época.





Por que uma empresa de história em quadrinhos investiu em maçãs?

Eu que inventei a maçãzinha (risos). Eu tinha filhos pequenos e a maçã era grande para a lancheira que eles levavam para a escola. Eles mastigavam um pouco e jogavam o resto fora. Um dia, passando por uma fazenda em Santa Catarina, vi maçãs pequenas nas árvores e perguntei para quem eles vendiam. “Isso a gente não comercializa, usa para alimentar os animais”, responderam. Pelo amor de Deus! Era o tamanho ideal para os meus filhos levarem à escola e não jogarem fora. Botei na cabeça deles aquilo e foi aquela beleza de resultado. Hoje são quase duas toneladas de maçã negociadas. E a fruta me deu a ideia de investir em outros alimentos naturais.





O que nunca veremos nas histórias da Turma da Mônica?

Os personagens em alguma situação de desonestidade, de traição, de maus hábitos. Temos muito cuidado com isso. Nós não podemos deixar de ter mensagens de otimismo, sempre trazendo alegria e confiança no futuro. Nas histórias, temos de abrir as portas, abrir a estrada para o leitor ver que existe futuro. Vai muito da minha filosofia de vida, que é a do personagem Horácio. Não consigo esconder que ele é o meu alter ego (risos).





Mauro, como o público da Turma da Mônica se adaptou às novas plataformas, como o streaming?

Houve uma adaptação das duas partes, tanto do público quanto da nossa. Principalmente agora, na pandemia. A gente experimentou lives, podcasts, experimentou o streaming mais do que nunca, e vimos que é um formato possível. Para mim foi um desafio, especialmente porque eu venho do teatro. Minha formação foi toda no palco, ao vivo. Houve um momento de desapego e aprendizado nesse processo, para entender que existem outras possibilidades de comunicação e de arte para chegar ao nosso público. Essas plataformas se tornaram um novo palco para nós. Uma coisa que facilita esse processo é que a Turma da Mônica é formada por personagens muito adaptáveis. Eles têm características que transcendem o tempo e a própria ferramenta. Assim conseguimos chegar com a proposta que queremos.





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Como funciona a área de projetos sob demanda?

Fazemos projetos próprios e, principalmente, projetos sob demanda. Somos uma empresa de conteúdo da Turma da Mônica. A criatividade é o nosso negócio e o céu, o nosso limite – assim como para a própria Azul. Quanto mais ideias temos, melhor. E conseguimos adaptá-las para qualquer tipo de plataforma e cliente, desde os produtos licenciados até os espetáculos e parques. Queremos ter ideias para colocar a Turma da Mônica em qualquer tipo de negócio. A gente gosta de ser desafiado, de pensar além.





A Mauricio de Sousa Ao Vivo já produziu 15 espetáculos musicais em dez anos. Quais atraíram mais público?

O nosso selo Circo Turma da Mônica foi o que nos trouxe mais público. Foram dois espetáculos e ultrapassamos 100 mil espectadores em cada um deles. Já Turma da Mônica – O Show foi o que viajou por mais lugares. Fizemos praticamente todas as capitais do País, entre outras cidades. E fomos para o exterior, como Miami, Boston e Orlando, nos Estados Unidos, pois também temos um trabalho grande de internacionalização da marca. Queremos nos fortalecer em outros países. Fizemos até uma turnê no Japão, onde acabamos de abrir uma filial, a MSP Japan. Queremos levar para lá nossos personagens, nossa filosofia, nosso jeitinho. E no Japão faz muito sucesso o conceito kawaii, que significa fofinho. A TDM combina muito com isso.





Mauricio e Mauro Sousa com personagens do espetáculo Turma da Mônica – O Show

Como o distanciamento social de 2020 afetou esses espetáculos? Eles voltam este ano?

É tudo muito incerto. Não temos previsão de reabertura do Parque da Mônica, de quando vamos para os palcos de novo. Já reabrimos algumas da Estações da TDM, como a do Rio de Janeiro e a de Olinda. Na verdade, esperamos que 2021 seja um ano de ressurgimento para nós. A área cultural foi muito afetada e será muito importante o apoio Personagens no Parque da Mônica, em São Paulo do público. O projeto cultural precisa contar com o público.





Hoje qual é a maior fonte de faturamento da Mauricio de Sousa Produções?

Licenciamento. São mais de 4 mil produtos. É o nosso core business. Nós emprestamos a nossa marca para que outros parceiros possam trabalhá-la nos seus próprios negócios. É um equívoco muito comum achar que somos a editora, que fabricamos as fraldas, os brinquedos. Na verdade, são expertises diferentes. Temos hoje mais de 150 empresas que licenciam nossos produtos.





O que podemos esperar da nova parceria da Mauricio de Sousa Produções com a Azul Linhas Aéreas?

Estou muito empolgado com as possibilidades que temos. Acredito muito na sintonia dos propósitos das duas empresas, de pensar em pessoas, de buscar sempre a excelência nas entregas, no atendimento, no conforto. Ambas têm esse DNA de querer contar histórias, de emocionar, de envolver vidas. São duas marcas 100% brasileiras, que valorizam o País, o brasileiro, que é o que a gente tem de melhor. Essa sintonia nos dá muitas possibilidades e o céu, literalmente, é o limite. Podemos voar juntos para qualquer lugar, em todos os sentidos. E nos aguardem, pois teremos muitas novidades.





Personagens no Parque da Mônica, em São Paulo

Linha do tempo

  • 1959
    Sua primeira tira é publicada no jornal Folha da Tarde, com Bidu e Franjinha
  • 1963
    Surgem o suplemento infantil Folhinha de S.Paulo e a nova personagem, Mônica
  • 1970
    É lançada a revista Mônica e Sua Turma, com tiragem de 200 mil exemplares
  • 1993
    São Paulo ganha o Parque da Mônica, que funcionou no Shopping Eldorado, até 2010
  • 1995
    Chega aos mercados a maçã da Turma da Mônica, em embalagens de 1 kg, com as frutas pré-lavadas
  • 2010
    Estreiam quatro musicais da Turma da Mônica. Até hoje já foram produzidos 15 espetáculos
  • 2011
    Mauricio de Sousa torna-se o primeiro quadrinista a ser empossado na Academia Paulista de Letras
  • 2012
    Surge a Mauricio de Sousa Ao Vivo, dirigida por Mauro Sousa, filho do autor
  • 2015
    O Parque da Mônica é reaberto no Shopping SP Market, onde funciona até hoje
  • 2019
    Chega aos cinemas Turma da Mônica: Laços, primeiro filme live-action com os personagens de Mauricio de Sousa








Espetáculo Turma da Mônica – Príncipes e Princesas

Turma da Mônica em números

  • 1.600
    páginas de histórias em quadrinhos da TDM são produzidas por mês
  • +2 milhões
    de espectadores viram Turma da Mônica: Laços nos cinemas
  • +7,5 milhões
    de livros já foram vendidos
  • +209 bilhões
    somam as visualizações dos desenhos no canal do YouTube, com 15 milhões de inscritos
  • +500 mil
    visitantes vão ao Parque da Mônica em SP por ano