A reinvenção do home office

Bruna Fioreti, jornalista e especialista em branding pessoal, fala da reinvenção do home office depois da pandemia

fotos Unsplash e divulgação





Bruna Fioreti

Em 2016, quando decidiu trocar o cotidiano agitado das redações pela carreira de coaching, a jornalista Bruna Fioreti teve de recriar uma rotina de trabalho em sua própria casa. “Minha principal dificuldade era a organização das tarefas. Sou ansiosa, agitada, e queria fazer muitas coisas”, diz. Esta dificuldade ficou para trás: hoje, de seu home office, Bruna toca projetos diversos como aconselhamento de carreira, treinamento de marca pessoal, palestras e ainda uma coluna no portal Uol. Nessa entrevista, Bruna fala como os brasileiros estão encarando o home office depois da pandemia e dá dicas de como melhorar sua rotina de trabalho em casa – nem que seja incluir alguns minutinhos de ócio.





1. O brasileiro está vivendo uma reinvenção do home office

Sim. Muitas empresas não estravam preparadas para colocar seus funcionários em home office, pois em geral tinham uma visão muito antiga de produtividade. Antes havia muito “presenteísmo”, essa cultura de ter que estar no escritório e às vezes ter que ficar até mais tarde. A gente está tendo uma reinvenção a fórceps desse sistema de trabalho. Os líderes das empresas estão entendendo que os funcionários podem render a seu tempo, eventualmente em diferentes horários, de maneiras diferentes. Daí a importância de ter confiança no funcionário. Antes o brasileiro praticava home office de maneira esporádica, quando era preciso. Agora é de modo integral, conectado o dia inteiro.





2. É importante adotar certas rotinas para melhorar o desempenho em casa? 

A disciplina é a melhor amiga de quem trabalha em casa. Mas ela não precisa ser chata, ou incluir acordar cedo e trocar de roupa. A disciplina são os mecanismos que você cria, pequenos rituais que o coloquem no “modo trabalho”. Crie um pequeno ritual matinal, uma sequência de três atividades para você começar a funcionar: “Vou fazer um chá, colocar uma roupa confortável, sentar nessa cadeira e começar a trabalhar”. Outra coisa que funciona é criar uma trilha sonora de trabalho, que pode ser uma única música repetida. Na minha época de redação, eu ficava escutando My Sweet Lord, do George Harrison. Usei tanto isso como técnica que, até hoje, se eu ouvir essa música eu consigo me concentrar e escrever qualquer texto. Quando você não está muito a fim de trabalhar, o que vai empurrá-lo para fazer aquilo é a disciplina, ou seja, rituais que te condicionam a fazer o que você precisa.





3. É importante ter um local de trabalho fixo em casa?

O básico é ter um lugar fixo. Hoje, vários estudos indicam que, conforme vamos mudando de ambiente para trocar de atividade, ativamos a nossa capacidade  de solucionar problemas de maneiras diferentes. Comece o dia na sua mesa de trabalho, seu lugar fixo. Se você vai mudar de atividade e percebeu que começou a se distrair, vá para o sofá. Trabalhe em pé, perto da janela, se tiver um apoio para o computador. Quando você troca de ambiente, você muda os sinais que está mandando para o seu cérebro e isso funciona como um ativador da criatividade. 





LEIA TAMBÉM: 9 ideias para o home office





4. Existe ócio criativo no home office

O que é o ócio criativo senão a junção de atividades prazerosas com atividades de trabalho? Muitas pessoas que fizeram a transição de carreira e foram para áreas que amam já sentem isso muito mais facilmente. Uma pessoa que trabalha no que gosta acaba procurando saber muito sobre aquela área, lê livros, vê filmes… tudo que ela faz acaba lhe trazendo ideias. O ócio criativo nada mais é do que pegar referências que em tese não estão vinculadas ao trabalho e permitir que elas floresçam em você. 













5. Muita gente tem problemas com o ritmo de trabalho dentro de casa. A procrastinação ajudar ou atrapalha a concentração? 

Eu sugiro que você trabalhe numa ideia, ou projeto novo, por uma ou duas horas, até o momento em que pensa “ah, não aguento mais”. Daí saia daquele ambiente, deixe aquela tarefa, e procure uma atividade diferente, divertida, lúdica: cozinhar, desenhar, ver um filme. Isso vai ativar a sua criatividade. É uma procrastinação produtiva. Mas isso só funciona se você já tiver começado um trabalho, para dar sinais para o seu cérebro de que está procurando soluções. Procrastinar só por procrastinar só vai atrasar sua vida. Trabalhe nem que for por uma hora, direcionando seu cérebro nessa atividade. Se a pessoa tem dificuldade de encontrar ritmo de trabalho em casa, está faltando a ela organização. Veja que horas você funciona melhor. Separe blocos de tarefas.





6. Existe uma etiqueta a ser seguida no home office

A grande etiqueta é respeitar o que seria o horário de trabalho do outro. Eu não acho ok o chefe te chamar em um fim de semana. As pessoas não são obrigadas a responder uma mensagem na hora – a menos que seja um serviço de urgência e esteja no seu turno. Isso precisa ser acordado com a equipe. Temos de estabelecer uma comunicação muito clara para que o sistema de home office funcione. Outra coisa: durante um call, você precisa deixar o outro falar. Essa mania que temos de interromper uns aos outros não funciona nas reuniões on-line. Escute o outro e daí tente falar.





LEIA TAMBÉM: 6 apps para otimizar seu home office





7. Quais eram as suas maiores dificuldades no home office e como resolveu isso?

Minha principal dificuldade era com organização das tarefas. Sou ansiosa, agitada, e queria fazer muitas coisas. O que mais aprendi trabalhando em casa e sendo minha própria chefe foi a priorização. Eu já era boa nisso no meu trabalho como redatora-chefe de revista. Mas não tem comparação quando você tem de encarar diversos tipos de projeto ou precisa lidar com departamentos dos quais não entende nada, como cuidar de finanças ou coisas técnicas. Bati muito a cabeça. O que ainda tenho dificuldade é entender como delegar e o que delegar. Para fazer algumas coisas, você precisa de outras pessoas.