A nova cara do chocolate brasileiro

Pequenos e médios empreendedores apostam em opções orgânicas, acompanham de perto cada etapa de fabricação e dão uma nova cara ao chocolate 100% brasileiro

por Giovanna Forcioni e Anna Paula Ali | fotos Divulgação





A máxima do “menos é mais” também chegou ao mundo dos chocolates. Esqueça as opções cheias de gorduras hidrogenadas, adoçantes e conservantes. A tendência agora é justamente o contrário: usar menos ingredientes para dar mais sabor. Na produção bean to bar (da amêndoa à barra, em português), o chocolate não costuma levar nada além de cacau e açúcar. Tudo é feito “do zero”, com um mesmo produtor acompanhando cada etapa da fabricação, da matéria-prima ao produto final.

A “simplicidade” na manufatura não é uma novidade só para os consumidores. Os empreendedores também estão aprendendo como criar estratégias específicas para esse nicho de mercado. Uma das apostas, por exemplo, é investir em lotes menores e em um público mais restrito. Com a fabricação reduzida fica mais fácil acompanhar de perto todas as etapas e extrair o melhor de cada matéria-prima – de preferência, sempre vinda de pequenos produtores nacionais.

O grande desafio ainda é ganhar espaço no mercado e competir com as opções industrializadas e importadas. “Os chocolates orgânicos são mais caros, têm uma vida de prateleira menor e por isso trazem dificuldades logísticas e de produção. Mas eles vieram para quebrar esse paradigma de que o Brasil nunca teve cacau e chocolate de qualidade”, afirma Tuta Aquino, fundador da marca Baianí.





Filha do Combu // Norte

Navegando nas águas do Rio Guamá, a partir de Belém (PA), em menos de 15 minutos se chega à Ilha do Combu. É lá que fica a sede da marca de chocolate amazônico idealizada por Izete dos Santos Costa. Depois de anos manuseando outros derivados do cacau, em 2006, Dona Nena – como é conhecida – decidiu fabricar chocolate e levá-lo para uma feira de produtores orgânicos. O sucesso foi tanto que começou a fazer bombons e cultivar cacau num sistema agroflorestal. Mas o negócio só alavancou mesmo com a ajuda do chef paraense Thiago Castanho, do Remanso do Bosque. “Ele se apaixonou pelo nosso trabalho, levou nossos itens para seu restaurante e começou a divulgar”, conta. Hoje Dona Nena chega a fazer cerca de 200 kg de chocolate por mês. Os carroschefes são as barrinhas rústicas e o brigadeiro de pote, feito com massa de cacau. “O objetivo é manter a nossa cultura e trabalhar em paz com a floresta.” facebook.com/donanenacombu





Danke // Norte

Lançada em agosto último, a marca tem como preocupação manter as matas de pé, regenerar o solo e nutrir relações justas com os agricultores e toda a cadeia. Para isso foi construída uma fábrica sustentável no meio da Floresta Amazônica, em Altamira, no Pará. O que economizam em tempo e transporte, investem na rede de quase 100 famílias que cultivam o cacau. “Danke, que significa obrigado, em alemão, é um profundo agradecimento à terra, aos trabalhadores do campo e ao fruto do cacau”, diz o proprietário Ernesto Neugebauer, que foi o fundador da marca Harald, há 38 anos. Os chocolates, bem cremosos, lembram os sabores de infância. Não à toa, a primeira linha da Danke chama-se Memória. Traz barras e bombons de tamanhos variados, nos sabores ao leite, branco e amargo, com variações como crocantes de amêndoas, caramelo e flor de sal e vinho do Porto. dankecacau.com.br





Raros Fazedores de Chocolates // Sudeste

Foi a curiosidade que levou o casal Vanessa Rizzi e Cesar Frizo a testar suas primeiras receitas de chocolate. A primeira versão foi bem caseira, feita no liquidificador que tinham em casa. Na época, estudavam Agronomia em Piracicaba (SP) e usaram o que estavam aprendendo na faculdade para aprimorar a fabricação. Testaram cacau de várias partes do País e chegaram à conclusão de que o chocolate da Raros levaria só dois ingredientes: cacau e açúcar. “Tentamos variar e comprar de diversos produtores. Eles entram em contato e damos dicas de como podem aperfeiçoar o cultivo”, diz Vanessa. Os primeiros clientes foram os próprios amigos e uma pequena loja da cidade. Hoje, além dos empórios e das lojas de itens especializados, as vendas são feitas a partir do site da marca. O carro-chefe é a barra 70% com pedaços de castanhas do Brasil. rarosfazedoresdechocolate.com.br





LEIA TAMBÉM: O sucesso dos negócios veganos





Angí // Centro-Oeste

O negócio da sul-mato-grossense Beatriz Branco emplacou antes mesmo de se tornar uma marca de verdade. Designer de formação, em 2017 fez um curso de empreendedorismo e recebeu o desafio de criar uma empresa fora de sua área de expertise. Formulou uma marca fictícia de chocolates, publicou a ideia em suas redes sociais e, em quatro dias, recebeu cerca de 300 pedidos. “As pessoas acharam que era de verdade e precisei estruturar a empresa de trás para a frente. Pedi ajuda para amigos e para a família e começamos a fazer e embalar chocolate na cozinha da minha casa”, conta. O segredo? Apostar nos ingredientes típicos do Pantanal. Já com estrutura de fábrica e uma equipe de funcionários, os carros-chefes são as versões preparadas com castanha de baru e guavira. “Compramos cacau de pequenos produtores do Pantanal e da Bahia. No futuro, investiremos no Pará”, finaliza. angichocolates.com





Baianí // Nordeste

Na casa dos baianos Juliana e Tuta Aquino, trabalhar com cacau sempre foi coisa de família. Filhos de produtores, cresceram ouvindo histórias de como funcionava uma fazenda de cacau. Mas, depois de adultos, resolveram seguir outro rumo: casaram e se mudaram para os Estados Unidos. Enquanto isso, uma reviravolta balançou os negócios da família. Nos anos 1990, uma doença, a vassoura-de-bruxa, dizimou boa parte do cultivo de cacau no Sul da Bahia, inclusive na Fazenda Santa Rita, da família de Juliana. Vendo a propriedade improdutiva e abandonada por anos, em 2013 começaram a se movimentar para não perder o patrimônio. Fazer chocolate foi a solução. Deu certo. Hoje todo o cacau usado é de origem única, plantado nas terras da família. “Fabricamos de 50 a 80 kg de chocolate por mês, mas já estamos com plano de duplicar ou até triplicar a produção.” baiani.com.br





Nugali // Sul

Sempre que viajavam para o exterior, os engenheiros Maitê Lang e Ivan Blumenschein traziam chocolates a pedido da família e dos amigos. Enxergaram aí uma oportunidade de negócio. Analisaram o mercado brasileiro e conheceram as etapas de produção de chocolate, até que, em 2004, deixaram os empregos com carteira assinada e abriram a própria fábrica. A Nugali nasceu em uma época em que pouco se falava de chocolate bean to bar no Brasil. “Começamos produzindo para transformadores, chefs… Só depois passamos a pensar no varejo”, conta Ivan. A virada veio quando, há três anos, foram finalistas no International Chocolate Awards, um dos prêmios mais prestigiados da área, com o tablete Serra do Conduru 80% cacau. O resultado alavancou as vendas e hoje, com cerca de 50 funcionários diretos, preparam-se para receber visitantes na nova unidade fabril em Pomerode (SC). nugali.com.br