Cidade Invisível traz trama policial e folclore brasileiro

Estreia hoje a nova série brasileira produzida pela Netflix, Cidade Invisível, que mistura uma boa trama policial com seres fantásticos do folclore brasileiro

fotos Alisson Louback/Netflix 





Cidade Invisível, nova série brasileira da Netflix, narra a história de Eric (Marco Pigossi), um fiscal ambiental que investiga a morte de sua esposa e o estranho surgimento de um boto-cor-de-rosa numa praia carioca. A trama policial ganha uma pegada ambiental e traz seres do folclore brasileiro, como o Saci, a Cuca e o Curupira. A série de sete episódios, que estreia hoje, ainda traz no elenco Alessandra Negrini, Wesley Guimarães e José Dumont. Filmada no Rio de Janeiro e Ubatuba, em 2019, Cidade Invisível foi criada e co-produzida por Carlos Saldanha (diretor das animações A Era do Gelo e Rio), que falou com a Revista Azul. Confira a entrevista abaixo.

ENTREVISTA Carlos Saldanha

Como surgiu a ideia de misturar trama policial e folclore?
Eu queria fazer algo com uma temática contemporânea e misturar com a brasilidade do nosso folclore, mas com uma roupagem diferente. O folclore muitas vezes é uma coisa lúdica, infantil, com diferentes abordagens regionais. Tentei ir mais fundo e buscar esses elementos e criar uma história única.





A série ajuda a trazer o folclore para o público jovem?
Ajuda muito. Tenho filhas entre 20 e 23 anos, que nasceram nos EUA mas têm uma conexão muito forte com o Brasil e aprenderam alguma coisa do folclore brasileiro quando eram pequenas. Mas elas não tinham um entendimento maior. Quando elas viram a série deu uma espécie de restart na cabeça delas elas diziam “poxa, eu me lembro dessa história, lembro do Saci”. Elas ficaram curiosas e viram uma roupagem diferente que trouxe mais para a geração delas. Ficou mais adulto, mais interessante. Foi quando percebi o poder da série, de trazer um pouco dessa história. dependendo da região as regras do folclore são diferentes, tive de criar uma única, minha, que serve á série sem perder a essência dos personagens. Essa é a minha interpretação da série. Aguçar essa curiosidade foi muito importante. Renascer. Hoje em dia estamos tão voltamos para o lado de fora. Muitas vezes sabemos mais das lendas gregas, das lendas americanas, do que das próprias lendas brasileiras. 





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Cidade Invisível também uma pegada ambiental. Essa preocupação com o meio ambiente, a preservação da flora e da fauna é uma constante em suas histórias.  Como você encaixou a pegada ambiental nesse enredo?
Muitas das lendas têm a ver com meio ambiente, com a natureza. Todos eles têm uma conexão. Ou é um animal, ou alguma entidade que age contra as pessoas que estão tentando destruir o espaço. O folclore faz parte do ecossitema. Não é só a floresta: são as pessoas, os ribeirinhos, é a cultura popular. Esse é o conceito que trouxemos para a série. Proteção ambiental não é só impedir que se corte aquela árvore, mas também as pessoas que o preservam, as que acreditam, as que moram ali. Essa coexistência é que faz o ecossitema ser tão plural.













Os animais têm um grande protagonismo nos seus filmes. Dessa vez as pessoas possuem arcos dramáticos bastante expressivos. É mais difícil abordar tramas humanas – ainda que aqui também haja as sobrenaturais?
Ah foi muito legal. Quando a gente faz filmes de animação, gravamos os atores primeiro, diferentemente de uma dublagem. Mas é num estúdio, onde eu só quero as vozes deles, e não a presença total. Depois quando vemos os filmes, os personagens meio que viram humanos para nós. Criamos uma relação de empatia com esses personagens de uma forma humana. Já trabalhando em live action, como esta série, foi bem diferente. Aqui eu preciso do personagem não só na atuação, mas como um todo, a presença, a pessoa, o momento, o cenário. Ver isso tudo no contexto físico, de poder tocar, ver a luz sendo feita, você filma aquele take que vai usar e depois não pode mudar mais, foi uma coisa fantástica. Eu adorei aprendi muito. Esse é meu primeiro projeto 100% nacional. Toda a equipe era brasileira e foi maravilhosa. Foi bom interagir com todos. Foi uma experiência tão boa e única que quando terminou deu vontade de chorar. A gente queria mais. 





Como foi a experiência de trabalhar numa série para o streaming?
Quando você faz um filme, tem cerca de uma hora e meia para contar aquela história. Na série, se juntar todos os episódios, acaba tendo quatro ou cinco horas de assunto. Você tem de ter histórias mais complexas, mas isso vira uma vantagem, porque conseguimos entrar nos personagens mais a fundo, criar tramas paralelas. eu adorei esse formato. São episódios relativamente curtos, em que você vê algo completo, mas fica com um gostinho de quero mais e pula para o próximo. Foi interessante criar esses ganchos. E foi ótimo trabalhar com a Netflix, que possui uma experiência gigantesca com esse tipo de série. Eu aprendi muito com eles também. 





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Você acha que a série tem potencial para boa audiência fora do Brasil?
Eu acho que tem, porque além da trama policial, ela entra no viés fantástico. E esse gênero atrai um público muito fiel. A série traz personagens fantásticos dos trópicos, com uma roupagem nova, o que vai aguçar o interesse desse público. A ideia de fazer isso no Brasil foi aproveitar esse momento de globalização das séries e trazer para cá um formato que funcione aqui e no mundo inteiro. E estamos muito acostumados a ver as mesmas coisas, como Drácula, Lobisomen. E agora, que vai aguçar a curiosidade. Ainda mais com a atual globalização da Netflix. Nos Estados Unidos eu vejo série dinamarquesa, islandesa, francesa. Vamos buscando o que tem de interessante. A série tem um viés global muito grande, a qualidade da produção, como a gente criou as histórias para que as pessoas tenham curiosidade de pesquisar. 














A série mostra um Rio de Janeiro belo, mas não óbvio. Como foi a escolha dessas locações, desse Rio que também é meio invisível para muita gente?
No início da produção eu até pensei em ir para um lado Rio de Janeiro lindo. Mas ao mesmo tempo a série fala de uma cidade invisível, então por que não registrar locais mais alternativos da cidade? A gente mostra a Lapa, mas é um canto da Lapa onde as pessoas não vão muito. Aquela coisa do noturno, do inferninho. A gente filmou na Pedra do Sal, na Praia da Urca, que é linda, mas isolada e onde pouca gente vai. Essa foi a pegada: filmar locais do Rio que você sabe que estão no Rio, mas não necessariamente mostrar um monumento turístico. A gente estava na beira do Pão de Açúcar, por exemplo, mas numa prainha que muita gente nem conhece. O impressionante é que toda praia em que filmamos, havia uma tartaruga. Mesmo na Urca, na Praia Vermelha, na Praia do Flamengo. A tartaruga virou um mascote da série.





E quais são os próximos planos?
Estou torcendo para que as pessoas curtam a série e queiram ver mais. Temos muitas ideias para continuar. O folclore é muito rico e temos vários personagens para incluir. A gente estava precisando de um projeto brasileiro que leve o Brasil para o mundo, mas de uma forma que não estamos acostumados a ver. Não precisamos consumir só os american gods. Temos nossos próprios personagens.





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