Uma aventura na Amazônia

A maior floresta tropical do mundo é um segredo que os brasileiros ainda estão descobrindo. Viajamos até Manaus e Presidente Figueiredo, no Amazonas, para mostrar as belezas e os encantos da região  





por Giovanna Forcioni  |  fotos Andre Dib





Galo-da-serra

“Você fala português?” Foi a primeira coisa que ouvi quando pisei na Floresta Amazônica. Depois de sair de Manaus e viajar três horas de barco e de micro-ônibus, desembarquei no hotel de selva. Logo de cara percebi que nós, brasileiros, ainda temos muito o que descobrir da Amazônia – coisa que os gringos já fazem há um bom tempo. 

Nos primeiros cinco meses de 2019, 285 mil turistas desembarcaram no estado do Amazonas. Desse total, segundo a Amazonastur, quase 40% eram estrangeiros. O número de brasileiros ainda é maior, mas não dispara na frente. Não faltam, porém, bons motivos para passar férias ali. Opções para relaxar e contemplar a natureza? Tem. Para se aventurar? Tem também. Para quem prefere um passeio mais urbano? Com certeza. Siga nosso roteiro e encontre sua Amazônia.





Para se desconectar

Samaúma, árvore-símbolo da Floresta Amazônica




Manaus vai ficando para trás, as margens do Rio Negro vão se alargando e, quando você se dá conta, só sobram o barulho do motor do barco e o verde a perder de vista. Mal dá para enxergar a imensidão da floresta e você já é obrigado a desacelerar. São 45 minutos de navegação até a primeira parada, na Vila do Careiro. Mas é só na segunda parte da viagem, num trecho de uma hora pela BR-319 até o Rio Maçarico, que você vai entrando para valer no clima dos próximos dias. Em menos de 15 minutos de estrada o 3G vai embora e o sinal de celular desaparece. A partir daí, é esquecer da vida e contemplar cada segundo da última hora de navegação que ainda temos pela frente. O destino é o Juma Amazon Lodge, um dos vários hotéis de selva espalhados no estado do Amazonas.





Vista aérea da floresta

Só quando o barco já está perto da margem do rio é que conseguimos ver os primeiros bangalôs aparecendo entre as árvores. É tudo tão integrado à floresta que quase não dá para notar. O hotel é suspenso por palafitas e interligado por passarelas. A estrutura, apesar de não ter cara de um cinco estrelas, tem tudo o que é preciso para uma estada (bastante) confortável na selva, com direito a restaurante, redário e piscina flutuante. Os 19 quartos – alguns com vista do rio, outros da floresta – têm camas de casal, chuveiro de água quente, ventilador e varanda com rede. O ar-condicionado, o frigobar e a televisão ficam para quando você voltar para casa. Prioridade na Amazônia é ver revoadas de biguás no amanhecer, relaxar na rede e tomar banho de rio.   

Existem opções de hotéis de selva para todos os gostos e todos os bolsos, mais ou menos distantes de Manaus. Se comparar, o Juma Amazon Lodge, que fica a 100 km da capital, funciona quase como um all inclusive: no preço dos pacotes já estão inclusos traslado até o hotel, acomodação, passeios e refeições (só refrigerantes e bebidas alcoólicas são cobrados à parte, sempre em dinheiro, já que as máquinas de cartão não funcionam por lá). Sem sinal de telefone e de internet, o tempo passa num outro ritmo. Mas está longe de ser uma experiência entediante. Todos os dias cada grupo de hóspedes faz pelo menos dois passeios, um de manhã e outro à tarde – isso quando a programação também não inclui saídas noturnas para ver jacarés, caminhar ou até dormir na mata. 





Piscina flutuante do Juma Amazon Lodge

Os pacotes duram de uma a cinco noites. Os mais curtos garantem o bê-á-bá da Amazônia. Os guias levam para remar no meio do rio e ver a floresta despertar no nascer do sol. A partir da segunda noite, já dá para sair de barco para pescar piranha (e devolvê-las para a água) e caminhar na mata, conhecendo uma a uma as propriedades medicinais e os usos das espécies que vamos encontrando no caminho. O melhor fica para o fim. Quem se hospeda por quatro noites ou mais tem a chance de ver de perto como vivem os caboclos da região, navegar entre as vitórias-régias e conhecer duas árvores gigantescas da floresta: a castanheira e a samaúma, que, na fase adulta, podem ultrapassar os 50 metros de altura. Se sobrar coragem, o desafio é escalá-las – com todos os equipamentos de segurança, é claro. Nada se compara à sensação de chegar ao topo e ver a floresta do alto, acima das copas das árvores. É quando você percebe que se acostumar com o calor, os bichos e a falta de conexão é a parte mais fácil. Difícil mesmo é se convencer de que já é hora de voltar. 









Para ver o lado B

Acredite se quiser: existe cachoeira no meio da Floresta Amazônica. E não estamos falando de uma, duas ou três. Só na cidade de Presidente Figueiredo são mais de 100. Pertinho de Manaus _ a menos de duas horas de estrada pela BR-174 _ Figueiredo virou point dos manauaras dos anos 1990 para cá. A geografia da região tem sua parcela de culpa nisso. Por estar numa área mais montanhosa, corredeiras se formam com mais facilidade e sobram opções de quedas-d’água para tomar banho. Por isso mesmo, aos sábados, domingos e feriados, a cidade fica lotada. O segredo é se programar para ir durante a semana. De segunda a sexta, as cachoeiras ficam mais vazias e você tem a  chance de tirar uma foto sem tantos turistas “atrapalhando” o visual. 













Na ponta do lápis, precisaríamos de mais de três meses para conhecer todas as cachoeiras de Presidente Figueiredo, mas não é preciso tanto. Em três ou quatro dias já dá para visitar pelo menos as mais famosas e de mais fácil acesso, como a Iracema e a Santuário, que tem três quedas-d’água e uma plataforma para quem quer mergulhar. A da Neblina já exige um esforcinho a mais. Para chegar lá são 6 km de trilha bem demarcada para ir e mais 6 km para voltar. Vale a pena, e ainda sobra fôlego para as cachoeiras do Mutum, Salto do Ipy, da Pedra Furada…

Para quem prefere um programa mais light e com mais infraestrutura, o Lagoa Azul Park aluga boias e tem serviço de bar. O estilão de balneário também aparece em Urubuí, um complexo com corredeira para banho e vários restaurantes. A Churrascaria e Peixaria Urubuí serve receitas com peixes regionais e um tempero bem caseirinho. 

Mas a verdade é que nem só de corredeiras e cachoeiras vive Presidente Figueiredo. Ainda há muita coisa para se ver, a começar por seu morador mais ilustre: o galo-da-serra (Rupicola rupicola), espécie de pássaro que virou símbolo da cidade. Isso porque ele vive perto de paredes rochosas e entradas de cavernas, tipo de paisagem que também existe aos montes em Figueiredo. Quem visita a Área de Proteção Ambiental (APA) Caverna do Maroaga, por exemplo, conhece duas delas de uma vez só. A APA fica a dez minutos do Centrinho da cidade, onde também está a Gruta da Judeia, que ganha uma queda-d’água na época da cheia, e a Caverna do Maroaga. Diz a lenda que ali um dos líderes dos índios Waimiri-Atroari se escondia na época de construção da rodovia BR-174, nos anos 1970. São 450 metros de galerias, mas os turistas (sempre acompanhados dos guias) só podem adentrar os 50 primeiros. E nem faz falta mais do que isso. É só apagar as lanternas por uns segundos para ouvir e sentir a força da floresta. 





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Para ver um pouco de tudo

Isca de pirarucu empanada com farinha do uarini, do Moquém do Banzeiro

Manaus tem uma infraestrutura que não perde em nada para as maiores cidades do País. Tem, porém, um bônus que poucas capitais têm: estar localizada a dois passos da maior floresta tropical do mundo. Fica fácil de entender o que isso significa quando você sobe os mais de 200 degraus da torre de observação do Museu da Amazônia (MUSA). A 42 metros de altura, acima do nível das copas das árvores, dá para ver, de um lado, uma imensidão de concreto e, do outro, uma imensidão de árvores, com araras, tucanos e macacos a poucos metros de distância. 

A proximidade com a floresta transparece não só na paisagem da cidade, mas também na mesa dos manauaras, que usam e abusam dos ingredientes regionais. No Moquém do Banzeiro, não deixe de pedir o tambaqui assado na folha de bananeira com molho de tucupi e macaxeira folhada e provar o gim infusionado com especiarias da Amazônia, servido numa cuia de argila. Já no Fish Maria, dentro do aeroclube da cidade, as pedidas certas são o chips de jambu e o tambaqui acompanhado de arroz com tucupi.

Macaco-barrigudo

Para quem quer levar um pouquinho dos sabores amazônicos para casa, a dica é ir até o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, no Centro. É uma parada estratégica depois de conhecer o Teatro Amazonas, principal cartão-postal da cidade, que fica a menos de 2 km de distância. Nos corredores do mercado, encontra-se de tudo, de especiarias e remédios naturais a souvenirs e peças de artesanato.

Atravessando a rua, já estamos no Porto de Manaus. É dali que costumam sair os passeios que as agências locais chamam de “safári amazônico”. O tour nada mais é do que um pot-pourri das experiências turísticas mais clássicas da região. Em um só dia, os barcos levam até o Encontro das Águas – onde o Rio Negro e o Rio Solimões caminham lado a lado, sem se misturarem por 6 km –, a um restaurante regional no meio do rio e à comunidade de casas flutuantes do Catalão, em Iranduba (AM), para ver o pirarucu, um dos maiores peixes amazônicos. Ainda sobra espaço na programação para ir até uma comunidade indígena e ver de pertinho os botos-cor-de-rosa. Funciona para quem tem pouco tempo na cidade ou nunca viu a floresta de perto, mas deixa um gostinho de quero mais. A desculpa perfeita para voltar.