Um passeio pelo Rio São Francisco

Na divisa entre Alagoas, Bahia e Sergipe, um passeio pelo Rio São Francisco revela cidades históricas, cânions de tirar o fôlego e paisagens ainda pouco exploradas pelos turistas

por Giovanna Forcioni | fotos Andre Dib





Há quem diga que Dom Pedro II tenha sido o primeiro viajante a fazer uma expedição pelo Rio São Francisco. A história que corre por lá é que, em 1859, o imperador desembarcou no interior do País para checar a possibilidade de instalar uma usina hidrelétrica nas quedas do rio. Mas, verdade seja dita, demorou até que outros grupos de turistas passassem por ali.

Não faz muito tempo desde que o Baixo São Francisco entrou no radar de destinos turísticos no Brasil: até os anos 1990, pouco se acreditava no potencial do sertão. O cenário só mudou quando os engenheiros da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) chegaram e anunciaram a construção da Usina de Xingó. Desde então, muita coisa se transformou. Em 1994 o represamento das águas fez o nível do rio subir e preencher os vãos entre os imponentes paredões de arenito que contornavam a fronteira entre os estados de Alagoas, Bahia e Sergipe. O resultado? O destino virou a atração número 1 do sertão. Hoje milhares de pessoas cruzam o Brasil para navegar entre os cânions do Xingó, mergulhar na história do cangaço e conhecer o charme das cidades próximas.





Espetáculo da natureza

Mirante do Talhado 

Pode ser pelas vistas panorâmicas do Velho Chico. Pode ser pelo tom esverdeado das águas do rio. Pode ser até pela vegetação cactácea e pelos galhos retorcidos da caatinga. O que não muda no desejo de quem visita o Complexo Turístico do Xingó é ver de perto a grandiosidade dos paredões avermelhados que emolduram o trecho entre Paulo Afonso (BA) e Canindé de São Francisco (SE).

Existem várias maneiras de se chegar até os cânions, ponto alto da visita à região. A mais tradicional é partir de catamarã do restaurante Karrancas, no lado sergipano, e navegar até pequenos píeres onde há paradas para banho, passando por formações rochosas como a Pedra do Gavião, o Morro dos Macacos e a Pedra do Japonês. Outra opção menos concorrida é dar um pulinho até Delmiro Gouveia (AL) e agendar uma caminhada ecológica com o pessoal da Pousada Verde. Criada para ser um centro holístico e terapêutico, a propriedade tem uma característica pra lá de privilegiada: abriga o Mirante do Talhado, um dos melhores pontos de observação panorâmica de toda a região. Com a ajuda de um guia dá para fazer trilhas e pegar um pequeno barco até a parte mais ampla do rio para conhecer cantinhos mais escondidos dos cânions. O fato é que, de cima, fica ainda mais fácil entender a dimensão da natureza dali.













Na também alagoana Olho D’Água do Casado, a parada obrigatória fica nos Cânions Dourados, onde dá para curtir o pôr do sol à beira dos paredões, com um saxofonista entoando canções de pano de fundo. Vale passar por lá nem que seja só para tirar fotos e admirar a paisagem.





No rastro da história

Logo de cara, entender a disposição geográfica da região pode ser uma tarefa difícil. Apesar de se espalharem por três estados diferentes, as cidades com atrativos turísticos ficam num raio de poucos quilômetros umas das outras, num trecho que pode ser tranquilamente percorrido de carro ou com o apoio das agências de viagem locais.

A escolha mais acertada talvez seja se hospedar em Piranhas (AL), não só pela localização estratégica, mas também por toda a história que abriga em suas ruas de pedra e em seu charmoso casario colonial. Foi ali, por exemplo, que Dom Pedro II pernoitou quando visitou o Velho Chico. Mas, entre todas as figuras que já passaram pela cidade, Lampião e Maria Bonita foram os que deixaram uma marca mais expressiva.





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Em 1938, um grupo de policiais piranhenses descobriu o paradeiro dos cangaceiros e armou uma emboscada na vizinha Poço Redondo (SE). Dos 35 membros do bando que encontraram, 11 foram mortos. Hoje, o passeio Rota do Cangaço passa pelas trilhas que levam até a Grota do Angico, lugar onde o grupo foi surpreendido. Já de volta ao lado alagoano, no Museu do Sertão, é possível ver as fotos dos dias seguintes à morte de Lampião e Maria Bonita, quando tiveram suas cabeças expostas nas escadarias da antiga Prefeitura de Piranhas.

Se no Centro Histórico o passado do sertão ganha vida, é também ali que o burburinho acontece depois que o sol se põe. Com mesas e cadeiras espalhadas pelo chão de pedra, os empresários locais recebem os turistas nos fins de semana. Quer petiscar e tomar uma cerveja enquanto curte uma boa música? Vá à Cachaçaria Altemar Dutra e aproveite as apresentações de forró e xaxado que rolam aos sábados. Prefere um lugar mais calmo para conversar e provar receitas típicas? Chegue cedo e garanta sua mesa na Nossa Bodega, cantinho onde a maceioense Fabiana Souza atende os clientes com a mesma simpatia de quem recebe um grupo de amigos para jantar. Vizinho dali, o Achados da Kômbida fecha o pacote como uma parada certeira para descobrir o artesanato sertanejo.





Atlântida sertaneja

Se na região do Xingó a construção da barragem deu vida a um dos maiores cânions navegáveis do mundo, a pouco mais de 100 km dali, a pernambucana Petrolândia não teve a mesma sorte. Com a instalação da Usina Hidrelétrica de Itaparica, nos anos 1980, boa parte da cidade foi parar debaixo d’água e sumiu, literalmente, do mapa. Hoje, três décadas depois, o município usa a história a seu favor e leva os turistas para mergulharem na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, que ficou parcialmente submersa com o aumento do nível do Rio São Francisco. De lá, os catamarãs partem para mais 20 minutos de navegação até a charmosa Ilha de Rarrá, que ilustra a capa desta edição.





Igreja do Sagrado Coração de Jesus, parcialmente submersa pelo Rio São Francisco




Um dos poucos pedaços de terra que sobreviveram à chegada das águas, é hoje uma boa surpresa para os visitantes. Desde 2012, nos fins de semana e feriados, a família dona das terras recebe visitantes que buscam relaxar, provar a culinária regional, caminhar nas dunas branquinhas, mergulhar nas águas cristalinas e entender o porquê de ali ser conhecido como um pedacinho do Caribe perdido no sertão.





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Arte de raiz

A poucos minutos de navegação a partir de Piranhas se esconde uma das maiores joias do São Francisco. O povoado de Ilha do Ferro, no município de Pão de Açúcar (AL), ainda preserva ares de tranquilidade e a essência dos vilarejos ribeirinhos do Velho Chico. Em cinco minutos de caminhada dá para perceber que ali a natureza é inspiração e obra-prima: uma a uma, placas de identificação indicam onde vivem os artesãos que usam pedaços de madeira para dar forma a pássaros, cachorros, homens e o que mais a imaginação permitir.

Fernando Rodrigues foi o primeiro que ganhou projeção fora da ilha ao criar mesas e bancos rústicos aproveitando a forma natural dos troncos que encontrava na região. Foi o empurrão para que outros moradores se desafiassem a talhar suas próprias peças em madeira. Deu certo. Hoje, dezenas de artistas seguem os passos de Seu Fernando, como Camille, sua neta. “Meu avô foi o fundador disso tudo aqui. Foi ensinando os filhos, os netos, até que hoje toda a família participa”, conta.













Se sobrava criatividade na ilha, ainda faltava um lugar onde os poucos visitantes pudessem pernoitar no povoado. Foi aí que Dona Vana deixou a cooperativa de bordadeiras e construiu uma pousada nos fundos do ateliê de Aberaldo, seu marido. Desde os anos 1980, quando suas peças começaram a ganhar fama em outros cantos do País, ele luta para manter viva a arte típica do povoado. “Gostaria que as crianças viessem para cá para aprender, porque um dia a gente vai embora e outros precisam ficar aqui para continuar essa história.”





Manual de sobrevivência

Parece óbvio, mas nunca é demais lembrar: uma vez no sertão, leve chapéu, protetor solar e garrafa com água na mochila. É bom estar preparado para as altas temperaturas e caminhadas sob o sol forte.

Caixa eletrônico não é algo comum nos pontos turísticos. A maioria dos estabelecimentos aceita cartão, mas é bom se programar para ter uma reserva de dinheiro sempre à mão.

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