Segredos da Serra Gaúcha

Bons vinhos, ecoturismo e tradição: conheça os segredos da Serra Gaúcha, um destino único, a cerca de duas horas de carro do aeroporto de Porto Alegre 

 por Manu Sombra  |  fotos Andre Dib





Vista da Cascata do Caracol, com direito a balanço infinito

Estamos no Parque Nacional de Aparados da Serra, em Cambará do Sul, a chamada “terra dos cânions”. Uma estrada de chão de 18 km e um caminho de 3 km entre araucárias centenárias nos levam ao Cânion do Itaimbezinho, um recorte geológico esculpido por lava vulcânica de 6 km de extensão, onde a mata densa e úmida forma uma das paisagens mais deslumbrantes da Serra Gaúcha. 

É comum ouvir que, se uma pedra rolar de cima do Itaimbezinho, ela só terminará de cair em Santa Catarina. Isso, porque a parte superior do planalto demarca os limites entre o Rio Grande do Sul e o estado vizinho, no qual o Rio do Boi percorre sinuoso o vale de 750 m de profundidade. Pelas trilhas, avistamos a Cascata Véu de Noiva e a Cachoeira das Andorinhas em dia sem neblina. Seguindo mais 40 km de carro, chegamos ao também imponente Cânion Fortaleza, que, assim como Itaimbezinho, foi incluído pela Unesco em abril na seleta lista de geoparques mundiais. 

Partindo de Cambará do Sul, pouco mais de 100 km nos separam de duas vistas literalmente novas da Serra Gaúcha, dessa vez em Canela. Desde dezembro de 2020, é possível avançar 35 m sobre o Vale da Ferradura no Skyglass, plataforma estaiada de aço e vidro, pela qual é possível caminhar, observando as corredeiras do Rio Caí embaixo do piso transparente, ou “flutuar” em uma das 10 cadeiras do seu monotrilho suspenso. 

Mas é no Vale da Lageana que mergulhamos na Mata Atlântica, pontilhada por araucárias, árvores símbolo da região. Desde julho de 2021, um novo ângulo da Cascata do Caracol, cartão-postal tradicionalmente avistado do topo de um mirante, pode ser apreciado no Pé da Cascata, como o nome do passeio sugere. A trilha de 1,4 km de mata fechada, onde os raios solares penetram o dossel das árvores, iluminando espécies nativas como a samambaia-açu, começa e termina no mesmo lugar, em parte que contorna o Rio Arroio Caracol.

O caminho até a queda d`água percorre uma propriedade privada, e o passeio precisa ser agendado com a Brocker Turismo. A dica é finalizar com um brunch na centenária Casa da Vó Ivonne, que preserva a arquitetura original da residência dos Wasem, uma das primeiras famílias de imigrantes que habitaram a Lageana.





LEIA TAMBÉM: Salvador e suas perfeições













Italianos e alemães

A história dos Wasem é similar a de milhares de alemães que desembarcaram no Brasil, a partir de 1824, atraídos pelas  promessas de terra e prosperidade da política migratória de povoamento do Sul do país. Os italianos chegaram a partir de 1875 — parte deles encontrou em Canela e na vizinha Gramado seu destino final.

Percorrer as estradas rurais Linha Bonita e Linha Nova, agora em Gramado, é conhecer um pouco dessa história. A arquitetura e os parreirais antigos remontam ao tempo em que as famílias lançavam as primeiras sementes e se reuniam no porão para beber o vinho da casa. Visite o Parque Olivas de Gramado ao entardecer e tenha uma vista privilegiada desse cenário. 













E que tal experimentar um tradicional café colonial? O Caffe Della Nonna é servido na própria colônia, como os imigrantes chamavam seus lotes de terra, e foi o primeiro da região a investir no agroturismo. Desde 1999, a família Foss mantém vivas a as raízes da roça, de onde saem as frutas das geleias, servidas ao som das músicas que a nonna Zumira ouvia dos avós que chegaram ao Brasil em 1875. “Até hoje cantamos La Bella Polenta, que eles me ensinaram”, ela explica, sorrindo, sobre a canção popular que homenageia o prato típico servido junto com pizzas, doces, pães artesanais, embutidos, vinho e graspa — a cachaça da uva. 

Na Cantina Linha Bella, perto dali, a magia acontece nas mesas geminadas, que fazem qualquer um perder a timidez e ser transportado para o Velho Mundo, ao som dos clássicos italianos cantados por um tenor e uma soprano. Na deliciosa Noite Italiana, as massas e a tradicional sopa de capeletti são preparadas no fogão à lenha. 













Não custa lembrar: estamos em Gramado, terra da boa gastronomia, que encontrou no churrasco gaúcho o toque tipicamente brasileiro. Famosa pelo Natal Luz e por seu bom chocolate artesanal, que na Páscoa se transforma em ovos gigantes na decoração urbana, Gramado é também a terra do Kikito, a cobiçada estatueta do Festival de Cinema de Gramado, que ocorre em agosto.  





LEIA TAMBÉM: O que fazer na Costa do Sol





Com sorte, o inverno presenteia a neve, mas atrativos não faltam mesmo quando a cidade parece hibernar na baixa estação. No colorido do outono, quando as folhas dos plátanos começam a desprender dos galhos, a dica é passear pelas ruas onde as arquiteturas bávara e normanda remetem a um cenário europeu. Se preferir, siga no Bustour até Canela e pare na suntuosa Catedral de Pedra, em estilo neogótico inglês. A distância entre as duas cidades é de apenas 7 km, e com um ticket você pode conhecer os pontos turísticos de ambas, sair e retornar ao ônibus turístico e ainda checar o horários das rotas por um aplicativo. Outro ônibus conduz ao universo da cerveja artesanal: o Bus Bier Night percorre três cervejarias, com direito à degustação em todas. Quem curte musicais pode entrar no clima da belle époque do Gatzz Gramado, um dinner show inspirado nos cabarés franceses. As crianças também não perdem tempo aqui: são dezenas de parques temáticos, de esqui na neve a um mundo esculpido em chocolate. Perca-se com elas na Aldeia do Papai Noel, no Dreamland Museu de Cera, no Mundo a Vapor ou nas supermaquetes do fascinante Mini Mundo.   

Com tempo, visite Nova Petrópolis, cidade de colonização germânica onde até hoje se fala alemão em casa e as crianças aprendem a língua dos antepassados na escola. Não deixe de provar um bom apfelstrudel, sobremesa austríaca preparada com maçãs, e de fazer um brinde às cervejas locais. 













Da uva ao vinho

A próxima parada é no Vale dos Vinhedos. No verão, Bento Gonçalves, Garibaldi e Pinto Bandeira entram no clima da Vindima, festa italiana da colheita, que tem como atração a pisa da uva para a extração do sumo, como os imigrantes faziam antigamente — hoje as vinícolas optam pelo método industrial.

Em muitas é possível conhecer cada etapa da transformação da uva em vinho tinto, branco, espumante ou brandy, bebida similar ao conhaque, feita a partir do vinho destilado — trata-se de um produto com denominação de origem, assim como o champanhe. Na Casa Valduga, a experiência percorre os aromas das barricas de carvalho, nas quais as bebidas são maturadas, e as caves escuras onde são envelhecidas já nas garrafas, processo que pode levar anos. 













Após as degustações, a chance de sair elogiando o vinho brasileiro é altíssima. “Se critica o vinho de garrafão, mas ele foi a base para toda a história que começou a ser construída na região”, explica Amanda Reschke, enóloga embaixadora da Casa Valduga, que hoje tem 60% da produção voltada a espumantes, como o rosé Maria Valduga, que leva 60 meses de autólise em cave. É, em parte, graças aos espumantes que a Serra Gaúcha vem conquistando reconhecimento internacional. Com o Garibaldi Prosecco, por exemplo, a Vinícola Garibaldi foi medalha de ouro no Challenge International Du Vin da França em 2021. 













Nas vinícolas Miolo e Aurora, duas das maiores do país, a tradição ganha escala industrial e oferece uma aula sobre diferentes tipos de uva, como Chardonnay, Cabernet Sauvignon e Malbec. Na Peterlongo, fundada em 1915 e única do Brasil a denominada champanhe, uma linha do tempo com maquinários antigos reconta sua evolução tecnológica. Na Don Giovanni, uma dica é apreciar o espumante Dona Bita, que passa por mínimos 70 meses de maturação, e se hospedar na pousada da vinícola, com vista para os parreirais. 

Quer entender o potencial de guarda e como o tempo pode mudar a qualidade de um vinho? Na Vinícola Pizzato, conhecida como a casa dos Merlot, a experiência fica completa levando para casa o chamado kit vertical, com garrafas do mesmo rótulo, mas de colheitas de anos distintos.  





Quer conhecer a Serra Gaucha? Reserve já suas passagens no site da Azul ou programe uma experiência completa na Azul Viagens.