Praias amazônicas de Alter do Chão

É hora de rever as definições de praia. Banhado pelo Rio Tapajós, o destino paraense vai elevar os seus padrões para uma combinação perfeita de água, areia e calor. Conheça as praias amazônicas de Alter do Chão

por Manu Sombra  | fotos Ariel Martini





Praia do Cajueiro

Do Aeroporto Internacional de Santarém, mais de mil quilômetros distante do Oceano Atlântico, você pode pegar um táxi em direção à praia. E não é fake news: as margens do Tapajós oferecem este capricho aos visitantes que lá chegam. O rio, que nasce no Mato Grosso, cruza o Sudoeste do Pará e deságua no Amazonas justamente na zona portuária de Santarém, pouco antes banha tranquilamente as areias alvas de Alter do Chão. Na orla do vilarejo de 7 mil habitantes, onde a vista é capturada pela paradisíaca Ilha do Amor, é fácil entender por que o jornal britânico The Guardian já elegeu essa uma das melhores praias do Brasil — nas palavras da publicação, “uma resposta da selva ao Caribe”. Ao mergulhar os pés nas águas brandas do Tapajós, os 33 km de asfalto entre Alter e o aeroporto evaporam rapidamente da memória. A terra dos índios Boraris, onde os portugueses aportaram em 1626, é um oásis com praias de água doce emolduradas pela floresta.

Apesar do nome, a Ilha do Amor é na verdade uma estreita península que a margem direita do Tapajós forma durante o chamado verão amazônico, entre agosto e janeiro. Nessa época a vazante do rio faz emergir a faixa de praia onde quiosques servem cerveja gelada e peixe frito. Barqueiros fazem a travessia até a Ilha do Amor, mas a distância curta da orla e o calor convidam às braçadas. Na chegada, cajueiros oferecem sombra natural – é quase obrigatório estender a canga na areia. Quem preferir os quiosques tem a opção de fincar a cadeira na margem do rio e aproveitar a brisa com água até os joelhos. No horizonte, o formato da Serra da Piraoca lembra um Monte Fuji coberto de mata tropical. A meia hora da vila de Alter de Chão, o azul Tapajós forma o Lago Verde. A enseada reflete a cor da floresta. Sua tonalidade lembra a pedra jade, usada pelos indígenas para talhar o muiraquitã, amuleto que povoa do folclore regional ao clássico livro Macunaíma, de Mário de Andrade. O lago tem uma bio diversidade ainda mais exuberante no inverno amazônico, o período das cheias que vai de fevereiro a julho.





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Em um passeio de voadeira por seus igarapés e igapós – cursos d’água que desembocam no rio e trechos da vegetação alagados –, vemos ninhos do japiim, ave de pequeno porte que imita o som de outros bichos e confunde o visitante. O rasante de garças e patos selvagens atiça cliques profissionais e amadores, enquanto a água esconde dos nossos olhos uma infinidade de peixes e répteis. Camuflados pela vegetação, macacos guariba emitem urros ouvidos a quilômetros de distância quando se sentem ameaçados. Não com menos intensidade, a culinária tapajônica também ativa nossas papilas gustativas. A cozinha local é rica em pescados, como o pirarucu, peixe sem espinhas que chega a pesar 200 quilos, e o igualmente saboroso filhote, exemplar jovem do piraíba. Acompanham a deliciosa farinha de mandioca paraense, mais grossa e crocante, ou a de piracuí, iguaria feita de peixe seco em pó. Na sobremesa, polpa de açaí em temperatura natural, misturada a flocos de tapioca e adoçada com açúcar. Uma dica para recarregar as baterias sem perder de vista a natureza é parar na Casa do Saulo, um confortável bangalô cercado de mata, na Praia de Carapanari. Nome em ascensão na gastronomia amazônica, Saulo Jennings transformou sua casa em restaurante e serve iguarias como o arroz de pato no tucupi (sumo amarelo da raiz da mandioca) preparado à moda do chef, desfiado. Saulo mora com a família no último andar e disponibiliza pranchas de stand-up paddle, com as quais é possível remar até bancos de areia do Tapajós e contemplar o pôr do sol mais bonito da região. Mas não pense que acabou. Estamos na Floresta Amazônica, especialmente convidativa a passeios de barco. Dentro do município de Santarém, o Tapajós encontra dois outros rios: o Arapiuns e o Amazonas. A viagem só começou.













No coração do Pará

Se você quiser saber o que a jamburana faz, ouça Dona Onete. A frase que alçou a cantora paraense quase octogenária ao posto de diva do carimbó chamegado prenuncia em que águas estamos. A erva que causa formigamentos na boca — usada no preparo de cachaça e no famoso tacacá — é uma metáfora da cultura paraense. O jambu treme. Nos barcos regionais e lanchas que saem de Santarém, deixe o carimbó ditar o ritmo do tempo e esqueça o relógio na bolsa. Passeios oferecidos por agências e guias locais permitem incursões mais longas, como na histórica Fordlândia, utopia industrial tardia do Ciclo da Borracha que o magnata americano Henry Ford desejou erguer no meio da Amazônia, a 233 km de Santarém por via fluvial. Mas é perfeitamente compreensível não querer ir muito longe. Os mais de 100 km de praias na região de Santarém têm trechos com cores e extensões de mar. Com tempo, hospede-se a bordo e durma em redes no convés, armadas para roteiros mais longos rios adentro. Sim, rios, no plural. Saindo da região portuária, dá para ver botos-cor-de-rosa despontando fora d’água perto do encontro com o Amazonas. O rio mais caudaloso do planeta não se mistura facilmente com o Tapajós e se distingue pela tonalidade barrenta, desenhando ilhas fluviais e braços como o Canal do Jari, habitat de jacarés, capivaras e bichos-preguiça.













Navegar por ali é flagrar revoadas de periquitos, carcarás e jaçanãs. Palafitas de madeira e uma igrejinha revelam a vida simples do povo ribeirinho, que, nas cheias, tem o barco como única opção de transporte. Para dar um mergulho – o calor e a umidade invocam essa ideia o tempo todo –, siga até o Arapiuns, afluente do Tapajós que também deságua por lá. Sua tonalidade escura, quase negra, contrasta com pequenas dunas que formam belas praias desertas e reproduzem em menor escala a paisagem dos Lençóis Maranhenses. Uma delas é a Ponta do Icuxi, banco de areia que emerge durante o verão amazônico. Com o motor do barco desligado, relaxe ao som das gaivotas.





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Na Reserva Extrativista Tapajós Arapiuns, há uma hospedaria comunitária no meio da floresta. A comunidade de Anã possui estrutura simples e rústica: redes, banheiros coletivos, refeitório e passeios pela mata, com direito a degustação de mel de abelhas sem ferrão em visita ao apiário local. Lá, uma noite de lua cheia sugere um jantar na beira do rio, com fogueira e peixe assado na brasa temperado com sal e limão. Chamado de piracaia, o costume noturno dos pescadores é regado a caipirinha e música regional. Por essas plagas, entrar sozinha no rio à noite é ouvir advertências sobre o boto-rosa, acusado de engravidar moças desacompanhadas.













A cultura local é uma mistura das influências indígena e portuguesa, mais tradicionais na região, e nordestina, das levas migratórias do fim do século 19. De volta à zona urbana, dedique tempo para descobrir como essa miscigenação resultou em música, artesanato, cerâmica e culinária. Assim como a capital Belém, a Santarém de hoje tem como atrativo o mercado popular. O Mercadão 2000 não é um Ver-o-Peso, mas ostenta dezenas de espécies de pescados, como surubim, tambaqui, tucunaré e matrinxã, que chegam frescos todas as manhãs. Elixires, especiarias, frutas exóticas e a famosa castanha-do-pará, seca ou fresca, enchem as sacolas de locais e forasteiros. Acredite, será impossível voltar para casa de mãos vazias.

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