Delta do Parnaíba, a joia do Piauí

Paraíso de águas mornas, dunas, rios e diferentes paisagens naturais fazem desse pedacinho do Nordeste brasileiro um lugar para querer voltar. Bem-vindo ao Delta do Paranaíba, na Rota das Emoções  

por Manu Sombra  |  fotos Andrea D’Amato e Gui Gomes





Rio Ubatuba

A tomar pela cartografia, pode parecer que há pouco a se explorar no litoral do Piauí. São 66 km de costa, distância menor do que o trajeto entre São Paulo e Santos. Mas não se engane: são raros lugares como este no mundo. A explicação está no rio Parnaíba, que, ao longo de sua extensão, divide os estados do Piauí e do Maranhão. 

Ao se aproximar do Atlântico, seu leito se abre em cinco braços, formando um enorme delta, letra do alfabeto grego em formato de triângulo. Tutoia, Melancieira, Caju, Canárias e Igaraçu se ramificam em outros canais menores, que, por sua vez, se desmembram em outros, menores — imagem que vista do céu lembra os troncos e galhos de uma árvore. 

Deltas são incomuns, já que a maioria dos rios deságua no mar ou em outros rios  por uma mesma foz. O Delta do Parnaíba é o único das Américas a desembocar em mar aberto, formando um arquipélago de 73 ilhas entre baías, canais, mangues, igarapés, dunas e lagoas. Cerca de um terço do Delta está em solo piauiense e sua biodiversidade ultrapassa mesmo limites: os quatro municípios costeiros do Piauí fazem parte da Área de Proteção Ambiental (APA) Delta do Parnaíba, unidade de conservação que alcança outras quatro cidades a Oeste, no Maranhão, e duas a Leste, no Ceará. 

Nosso desembarque é na maior delas. Segundo polo econômico do Piauí — atrás apenas de Teresina —, Parnaíba é o coração da Rota das Emoções, roteiro turístico que também inclui os Lençóis Maranhenses e Jericoacoara, no Ceará, propondo um passeio nos três estados nordestinos. Desde setembro, a Azul Conecta oferece um vôo panorâmico diário ligando os seis destinos da Rota, além das operações regulares da Azul em Parnaíba.





Paraíso perdido

Da janela rente à poltrona do avião, o visual prende qualquer espectador. O mar azul-claro, manguezais e dunas a perder de vista lembram um paraíso perdido. Diferentes ecossistemas que, na realidade, são berçários de espécies marinhas, aves e mamíferos — algumas ameaçadas de extinção.

Nosso primeiro destino é o Porto de Tatus, na cidade de Ilha Grande, a poucos minutos de Parnaíba. Alerta de spoiler: navegar no Delta é como entrar em um imenso labirinto verde e os passeios podem ter diferentes pontos de partida e de chegada. Impossível conhecer tudo em um dia. 

Logo nos primeiros minutos, avistamos praias de água doce cercadas por dunas, onde o perigo é querer ficar mais tempo. Ao entrar no igarapé Guirindó, um dos maiores do Delta, as raízes do mangue se impõem em um percurso sinuoso de mais de 5 km por dentro de mata fechada, que se abre revelando as copas imponentes das carnaúbas, palmeiras sertanejas de onde se extrai da cera à palha.

No caminho, o barulho dos macacos bugios se mistura ao som dos pássaros, enquanto pequenas iguanas se camuflam nas margens que se abrem próximo à Ilha das Canárias, onde a cata do caranguejo no mangue é fonte importante de renda da população ribeirinha. Maior ilha do arquipélago, Canárias fica em uma reserva extrativista e tem cerca de 3 mil moradores.  













As dunas do Morro do Meio, agora na Baía do Caju, oferecem uma vista panorâmica de um dos cinco encontros do Parnaíba com o oceano. Seu pôr do sol só não é mais fascinante que a revoada dos guarás, logo adiante. Ao cair da tarde, as aves vermelhas retornam de diferentes pontos do Delta para uma pequena ilha dormitório, onde não sofrem a ameaça de predadores. Por se alimentarem de pequenos caranguejos ricos em caroteno, os guarás têm essa tonalidade escarlate, que colore o céu todos os dias no mesmo horário. 

Depois que escurece, a dica é transformar o retorno em um divertido safári noturno. Com sorte e um pouco de paciência, você avistará cobras enroladas nos troncos, iguanas e jacarés-de-papo-amarelo com seus olhos brilhantes refletidos nos focos das lanternas. 





Vento, ventania

Aventure-se também ao sabor dos ventos nas praias do Piauí. Os alísios que percorrem a região e giram as hélices dos parques eólicos também movem montanhas de areia e entortam as copas das árvores. Uma delas, a Árvore Penteada, lembra cabelos verdes esvoaçantes e virou ponto turístico, entre as praias do Arrombado e de Carnaubinha. 

É graças a esses ventos constantes, especialmente de julho a janeiro, que as praias piauienses disputam fama internacional, junto com as cearenses, entre as melhores para o kitesurfe. Barra Grande é a mais famosa e virou ponto de encontro de gente do mundo todo. Suas águas quentinhas e quase sem ondas também são ótimas para o banho de mar. 

Com dez horas de curso e equipamentos fornecidos pelas escolas locais é possível aprender a dominar a pipa, se equilibrar na prancha e sair velejando nas águas tranquilas de Barra Grande e de outras praias da região. Uma delas, a vizinha Macapá, é ideal para quem está começando no esporte. 













Não é só a força dos ventos que tem modificado a paisagem de Macapá. Ao chegar à praia, é comum ouvir histórias de casas que foram engolidas pela elevação do nível do mar nas últimas décadas. O próprio Delta do Parnaíba vem perdendo terreno para as marés. Mapas da década de 70 indicavam 83 ilhas no arquipélago — dez a mais que as atuais 73.

O Museu do Mar, em Parnaíba, oferece um mergulho na história da região. Ossadas de animais, réplicas de embarcações e equipamentos náuticos antigos remontam à colonização a partir do início do século 17, quando a criação de gado era a principal atividade econômica. No Porto das Barcas, conheça as ruínas do antigo armazém usado para estocar babaçu e cera de carnaúba, hoje um centro cultural. Aproveite para experimentar licores e comprar souvenires.





Caminhos de areia 

Uma estada mais longa sugere uma visita a Piracuruca, a 150 km de Parnaíba, onde fica o Parque Nacional de Sete Cidades. O conjunto de cidades imaginárias de arenito, no meio do cerrado, reúne 26 sítios de pinturas rupestres e atrai geólogos, arqueólogos — e até ufólogos — interessados em desvendar seus mistérios milenares.













Cajuína

De volta à brisa do mar, faça a travessia dos Lençóis Piauienses, um conjunto de dunas e lagoas entre Parnaíba e a vizinha Luís Correia que se conecta com diferentes praias, como as do Coqueiro e de Itaqui. A travessia pode levar um dia inteiro e a melhor época é o primeiro semestre, já que boa parte das lagoas seca no período oposto, de estiagem. Uma exceção é a do Portinho, maior de todas.

O melhor jeito de atravessar os pequenos lençóis é pilotando um quadriciclo. A dica é seguir o caminho do guia, que ponteia o grupo indicando os trajetos mais seguros entre as dunas. Ao longo do passeio, não deixe de fazer algumas paradas e de apreciar o silêncio entrecortado pelo sibilar dos ventos.    

Partindo dos Lençóis Piauienses, uma boa opção de parada é próximo ao Farol de Itaqui, cartão-postal de uma das mais belas praias do estado. Suas piscinas naturais formadas na maré baixa reconfiguram, ao longo do dia, as tonalidades de azul e verde, lembrando um cenário caribenho. 

A culinária local sugere diferentes experimentações com lagostas, camarões e caranguejos. A cultura sertaneja é bem representada pela carne do sol e pelo arroz Maria Isabel, que leva carne desfiada. Para refrescar, uma cajuína gelada, bebida símbolo do Piauí feita do suco de caju clarificado e sem adição de açúcar.

O caju realmente se impõe aqui. Em Cajueiro da Praia, cidade fronteiriça com o Ceará, um cajueiro gigante de 8.880 m² de copa disputa o título de maior do mundo no Guinness World Records. No caminho de terra contornando o chamado Cajueiro-Rei, a dica é encontrar as margens do rio Ubatuba para um passeio de barco até as croas de areia de onde é possível avistar peixes-boi.

Sob o sol inclemente desse pedaço de paraíso tropical, a sombra de uma cabana de palha é refúgio perfeito para assar um peixe na brasa. Ao avistarmos o vizinho Ceará, logo ali, a sensação não poderia ser outra: para conhecer melhor esse pedacinho do Nordeste, a vontade é ficar muito mais tempo. 





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