As melhores experiências no Pantanal

Com acesso fácil a partir de aeroportos e estradas asfaltadas, o Pantanal Sul oferece a combinação perfeita para quem quer relaxar, conhecer a cultura local e ter a chance de ficar cara a cara com a vida selvagem

por Giovanna Forcioni  |  fotos Andrea D’Amato





Pôr do sol durante o safári na Fazenda San Francisco, em Miranda

“Ontem, aqui, encontramos uma onça-pintada com dois filhotes. Espero que hoje a gente tenha a mesma sorte.” O céu já estava pontilhado de estrelas e todos a bordo do 4×4 quando nosso guia deu o sinal para que o motorista enfiasse o pé no acelerador. Com cobertores para espantar o frio e óculos de proteção para evitar que mosquitos entrassem nos olhos, seguimos na estrada na escuridão e no mais absoluto silêncio. De repente, o carro freia e o guia aponta o farolete em direção aos arbustos. Todos se viram, tensos e na expectativa de que fosse ela. Eis que, então, ao longe, avistamos um casal de veados-campeiros se aproximando. Alarme falso. 

Parece até coisa de programa de televisão, mas não é preciso ser um grande aventureiro para viver experiências como essa. E, spoiler, também não é preciso ir tão longe assim. Poucos lugares no mundo te dão a chance de ficar cara a cara com tantos animais selvagens como o Pantanal sul-mato-grossense. Depois de algumas horas de estrada a partir da capital Campo Grande, a sensação é de ir se desconectando das preocupações e se conectando com a natureza. 

Cavalgadas em planícies alagadas, caminhadas na mata, passeios de barco para assistir ao pôr do sol, safáris para observar aves… O combo pantaneiro vem completo. Nas rodovias que ligam o aeroporto de Campo Grande (CGR) ao interior do estado, já dá para sentir um gostinho da experiência quando uma arara-azul cruza a pista voando ou quando um grupo de jacarés toma sol nos rios na beira da estrada. Mas é nas fazendas, no coração do Pantanal, que a magia acontece. 

Algumas propriedades locais oferecem estrutura para receber os turistas e guiá-los em todos os passeios. As pousadas da região costumam oferecer programas de day use ou pacotes que também já incluem guia, hospedagem e refeições. A melhor escolha é aquela que cabe no seu bolso e nos seus objetivos: opções não faltam, especialmente na BR-262, nas cidades de Aquidauana, Miranda e Corumbá, que já têm melhor infraestrutura para receber os viajantes. 





As grandes fazendas

Se, quando pensa em Pantanal, o que vem à sua mente são cenas de peões montados a cavalo, rebanhos enormes, descampados alagados e fazendas a perder de vista, não está totalmente errado. É possível, sim, encontrar cenas como as mostradas na novela transmitida em rede nacional na década de 90 e agora, no remake. Mas a região pantaneira não se resume a apenas isso. 

Com 210 mil km², o bioma ocupa um espaço equivalente à soma das áreas de Bélgica, Suíça, Portugal e Holanda. A graça da região é justamente o efeito surpresa. O cenário muda a todo tempo e o que você vai encontrar depende do momento em que chegar lá. A região mistura um pouquinho de Amazônia, de Cerrado, de Mata Atlântica, de Chaco paraguaio… Mas quem manda mesmo na paisagem é o sobe e desce dos rios. 

A partir de novembro chove mais e o nível das águas vai subindo, subindo e subindo, até encharcar o solo, alagar as regiões mais planas e cobrir a vegetação. Época perfeita para fazer os passeios de barco e navegar devagarzinho nos corixos. É só depois de março que as águas começam a baixar de novo e as mais de 800 espécies de aves e mamíferos voltam a dar as caras, zanzando sem muita preocupação nas margens dos rios e nas estradas.













Uma das melhores e mais tradicionais formas de entender de perto o ciclo das águas do Pantanal é montado a cavalo e saindo campo afora. Só assim dá para chegar a lugares e áreas alagadas impossíveis de serem alcançadas a pé ou de carro. Na Pousada Pequi, em Aquidauana, a 140 km de Campo Grande, a cavalgada já faz parte da programação. 

Nos anos 1990, a sede da centenária Fazenda Piqui abriu as portas para turistas e, desde então, recebe visitantes do mundo todo que desejam entender o funcionamento de uma típica (e enorme) propriedade pantaneira. São mais de 2 mil hectares e apenas 10 quartos, onde os hóspedes são acolhidos e recebidos diretamente por Rodrigo e Renata, o casal de proprietários.

O cuidado com os detalhes vai desde os apartamentos, decorados com muito bom gosto, aos deliciosos pratos tradicionais servidos na cozinha e à simpatia dos funcionários e guias. Além de todas as refeições incluídas na tarifa, os hóspedes também têm direito a escolher até dois passeios por dia, que costumam acontecer no começo da manhã e à tarde. Difícil mesmo é decidir entre sair para pescar, acompanhar a lida com o gado, passear de barco, fazer um safári fotográfico ou simplesmente relaxar na piscina enquanto escuta a cantoria das araras-azuis.





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Os animais

Jacarés, capivaras, lobinhos, tucanos, veados, tuiuiús… Ir ao Pantanal e não ver todos eles é uma missão quase impossível. A região abriga mais de 900 espécies de mamíferos, aves, répteis e anfíbios, que são avistados aos montes nos passeios oferecidos aos turistas. Se tiver paciência e um pouquinho de sorte, até sucuris, tamanduás, lontras e onças-pintadas podem aparecer. 

Entre todas as formas de ir à procura dos animais pantaneiros, os safáris fotográficos costumam estar no topo da lista. A bordo de pequenos caminhões ou de um 4×4, você consegue percorrer longas distâncias e chegar pertinho de vários bichos. O que vai determinar o quão próximo chegará deles é a sua coragem — desde que autorizado e sinalizado pelo guia de que a movimentação é segura, é claro. 

Em Corumbá, a 315 km da capital, os turistas podem escolher se preferem viver a experiência com ou sem essa emoção. O Pantanal Jungle Lodge também é uma hospedagem que funciona no esquema (quase) tudo incluso. Construído às margens do rio Miranda, ele funciona sobre palafitas, para acompanhar o sobe e desce do rio, e oferece um extenso cardápio de atividades, que vão desde os tradicionais safáris até trilhas e flutuações. 

Na teoria, navegar e mergulhar em águas cheias de piranhas e jacarés pode não parecer a melhor ideia do mundo. O barco motorizado que leva os turistas para pescar e assistir ao pôr do sol é o mesmo que deixa os turistas na área de mergulho, longe das margens, que é onde se concentram os animais. Com a ajuda de um flutuador de espuma e um colete salva-vidas, é só relaxar e se deixar levar pela correnteza. Prepare-se para, durante o percurso, avistar dezenas e dezenas de passarinhos sobrevoando o rio. 













Agora, se o seu objetivo é mesmo tentar encontrar a onça-pintada, saia de Corumbá e pegue a BR-262 ou a Estrada Parque até a cidade de Miranda. O que se diz por lá é que a Fazenda San Francisco é um dos lugares em que as chances de esse encontro acontecer são maiores, ainda mais se você puder esticar a visita e ficar até o fim do dia para a focagem noturna. Durante a noite, a luz forte do farolete dos guias reflete nos olhos dos animais e fica mais fácil localizá-los. Cada parada do carro é uma surpresa. 

Quem tem pouco espaço na agenda a alternativa é aproveitar o day use da propriedade. A programação inclui um safári em áreas de preservação e plantação de arroz e uma voltinha de chalana no Corixo São Domingos, para pescar piranhas e ver de perto as aves e os jacarés que ficam nas margens. 





O pantaneiro

Além da chance de ver grandes mamíferos de perto, a região de Miranda também oferece duas das experiências mais autênticas do Pantanal Sul. Vale a pena reservar um dia inteiro na agenda só para conhecer o Projeto Salobra, que funciona em esquema de day use, com opções de passeio de barco. 

Na chegada, você é recebido com café e chipa fresquinhos e, na sequência, sobe numa carreta que leva até a margem do rio. É de lá que zarpam os barcos que vão navegando entre aguapés até o gran finale, o ponto onde as águas barrentas do rio Miranda se encontram com as águas transparentes do rio Salobra. O tipo de paisagem que faz gosto encher o rolo da câmera. 













Depois, para fechar com chave de ouro, siga até a Fazenda Hi-Fish, que há poucos meses inaugurou uma estrutura superaconchegante para receber os turistas. Aproveite a pernoite para recarregar as baterias e amanhecer com um cheirinho de café da manhã preparado no fogão a lenha. A proposta do Pantanal Experiência é levar o viajante para um mergulho nos costumes do homem pantaneiro, a começar pela gastronomia. Os visitantes são convidados a participar de uma simulação de uma comitiva de bois e aprender a tocar a boiada como um típico peão local. Quando as águas do Pantanal começam a subir, os fazendeiros precisam tirar o gado das áreas alagadas e fazer o seu transporte para terrenos mais altos, onde possam ficar protegidos. É exatamente isso que os guias nativos ensinam aos turistas. 

Numa programação que pode durar até três dias, todos são convidados a sair em cavalgada na mata e nos lagos, participar de um característico almoço de comitiva ao ar livre, preparar os cavalos, lidar com o gado, integrar uma roda de prosa com tereré e a dormir em redes e barracas sob o céu estrelado. Uma experiência para ter um gostinho do que é o Pantanal raiz. 





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