Outubro Rosa: tumores com menos de 1 cm têm 95% de chance de cura

A dra. Silvia Sabino, médica radiologista do departamento de prevenção do Hospital de Amor, fala sobre a importância do diagnóstico precoce no tratamento do câncer de mama e avalia o impacto positivo da parceria com a Azul no projeto Conexão Azul Rosa

fotos Divulgação





Dra. Silvia Sabino

Há três anos, a Azul formou uma parceria com o Hospital de Amor chamada de Conexão Azul Rosa. O projeto transporta mulheres em qualquer etapa do tratamento de câncer de mama de qualquer lugar do Brasil para uma das unidades do Hospital de Amor ou hospitais parceiros que fiquem mais próximo de onde elas residem. Nos quatro anos desta parceria, já foram beneficiadas 105 mulheres e seus acompanhantes com a doação de passagens aéreas para diversas regiões do País, graças à grande capilaridade da malha da Azul.

Para celebrar os 10 anos de Outubro Rosa na Azul, entrevistamos a dra. Silvia Sabino, médica radiologista do departamento de prevenção do Hospital de Amor e coordenadora do programa de qualidade total em mamografia da Fundação Pio XII. A especialista, que já trabalha há quase 12 anos na instituição, fala aqui das estatísticas do câncer de mama no Brasil, da importância do diagnóstico precoce para um tratamento vitorioso e do impacto positivo da Conexão Azul Rosa nas ações do hospital e na vida das mulheres que enfrentam a doença.





Quantos pacientes em média o Hospital de Amor atende por ano? Destes, quantos têm câncer de mama?

Hoje são feitos cerca de 1,7 milhão de atendimentos, como consultas, procedimentos e exames. No total são em torno de 224 mil pacientes ao ano. Destes, são 14.200 casos de câncer diagnosticados – 1.700 são de câncer de mama.





Esse número tem crescido?

As estatísticas mundiais mostram que o número de casos novos de câncer de mama cresce a cada edição do Outubro Rosa. A cada ano mais de 1,5 milhão de mulheres escutam a frase “você tem câncer de mama”, no mundo inteiro. O Brasil segue essa estatística mundial. Mas encaro isso também como um aumento do acesso ao diagnóstico. As mulheres estão tendo mais acesso aos exames pelo aumento do número de equipamentos dedicados a realização de mamografia pelo Brasil. Ainda está muito abaixo do que gostaríamos, mas vem crescendo.





Existe uma meta?

Para uma cobertura adequada do câncer de mama, um país deveria ter ao menos 70% da população-alvo realizando o exame de rastreamento – no caso da mama, a mamografia. Quando falamos em população-alvo, existem na verdade dois alvos. O primeiro seriam mulheres que são preconizadas pelo Ministério da Saúde, que são mulheres de 50 a 69 anos, a população-alvo básica; mas temos o que chamamos de mulheres em risco de desenvolvimento de câncer de mama, que são as de 40 a 69 anos – que é a nossa população aqui no hospital.





Como tem evoluído o número de mulheres tratadas de câncer de mama nos últimos anos?

Existe uma forte associação entre a possiblidade de realizar a mamografia e as evoluções de tratamento para essas mulheres. Hoje as cirurgias mamárias são conservadoras. Antigamente víamos aquelas retiradas completas de mama, às vezes até de músculo peitoral, esvaziamento as axilas. Hoje, por conta dos diagnósticos precoces, as cirurgias podem ser menos invasivas. Tiramos apenas a área lesada da mama. As radioterapias normalmente são muito focadas, para minimizar o impacto da radiação. Essas mulheres têm uma recuperação fantástica. Isso tudo depende da fase do câncer em que ele é diagnosticado. Se eu diagnostico uma lesão pequena, posso propor um tratamento menos invasivo, que provocará uma cicatrização mais rápida e uma reabilitação total. Se eu pego uma lesão mais avançada, tenho de propor uma cirurgia mais extensa, que pode provocar algum tipo de sequela. Quando conseguimos pegar um tumor de mama com menos de um centímetro de diâmetro, que ainda nem é palpável, a possibilidade de cura é maior do que 95%. 













Qual foi o principal avanço trazido pela parceria com a Azul nestes quatro anos?

Levamos os exames até as mulheres por meio das nossas unidades móveis. E são locais longínquos, de difícil acesso. Você tem de percorrer distâncias imensas para chegar a um centro maior onde exista o tratamento. Uma mulher que recebe uma unidade móvel, perto da sua casa, numa dessas pequenas cidades, realiza o exame, identificamos ali uma lesão potencialmente maligna e conseguimos fazer o diagnóstico. O grande problema é: é agora? Como tratar essa mulher? A Conexão Azul Rosa propiciou, na verdade, o encurtamento destas distâncias. A parceria conseguiu fazer com que essa mulher, que mora em um local longínquo, consiga receber seu tratamento nos grandes centros, com infraestruturas adequadas. E tudo isso com conforto, com humanização, com acolhimento pelas equipes. Inclusive da Azul, que recebe essa mulher com um carinho imenso. Quando ela chega no aeroporto e é recebida por uma equipe que a reconhece imediatamente, a acolhe adequadamente e a recebe de uma maneira calorosa dentro da aeronave… isso tudo altera o psicológico dela e a faz se sentir importante, sentir que tem essa chance toda de vida. Esse é o grande diferencial dessa parceria: conseguir modificar de uma maneira positiva a história natural da doença dessas mulheres. 





Qual é a maior dificuldade dessas mulheres no tratamento?

Quando uma mulher, especialmente de uma cidade tão distante, sem condições de fazer um tratamento, recebe um diagnóstico de câncer de mama, pode ser uma sentença de morte. Essa parceria com a Azul traz a possibilidade da sobrevida ou até da cura. E para nós, que trabalhamos com o câncer de mama, agir rapidamente é essencial para um bom resultado. Faz toda diferença entre dar uma sobrevida adequada ou curar o câncer essa mulher. A ação da Conexão Azul Rosa diminui essa distância, propiciando essa facilidade de deslocamento, essa velocidade de ação da equipe de tratamento é essencial para modificarmos o que vai acontecer na vida dessas mulheres.





E como será a campanha em 2020?

Esse é um ano atípico. Por conta da pandeia, todas as ações que sempre fazemos durante o Outubro Rosa foram canceladas. Não podemos neste momento estimular nenhum tipo de movimentação dessas mulheres para a realização de exames. Uma parte da nossa mulher-alvo é exatamente a faixa etária de risco. Nesse momento é mais importante que nós protejamos essas mulheres da pandemia do que a realização da mamografia. Mesmo que o exame seja atrasado num período de seis meses a um ano, isso ainda é seguro para elas. A dica neste Outubro Rosa, em que não podemos realizar as ações, é o autocuidado. A ideia é que essa mulher tenha, principalmente, uma atitude saudável, como manter seu peso ideal, praticar atividade física, ter uma alimentação saudável. E qualquer coisa que ela sinta de diferente na mama, como um nódulo, ou teve alguma saída de secreção, principalmente uma secreção transparente ou sanguinolenta, procure seu médico. Porque a equipe médica está preparada para receber as mulheres de uma maneira segura. E as demais mulheres, que não estão sentindo nada, podem aguardar, pois retomaremos nossas ações e exames de rotina, com segurança, o mais breve possível.